Opinião: Métodos colaborativos de apoio à decisão: uma prática em crescimento
Já perdi a conta de quantos textos escrevi sobre a necessidade de, em todas os planos e processos de tomada de decisão, incluir ferramentas ativas de participação. Mais do que exigências técnicas, são etapas essenciais para a qualidade de decisões em contextos de elevada complexidade, incerteza e que envolvem múltiplas entidades e visões da mesma realidade. Ou seja, obrigatório para todos os assuntos que verdadeiramente interessam ao domínio coletivo. Mesmo no setor empresarial e privado, as grandes empresas e todas as que pretendem inovar, fazem, regularmente, este tipo de processos.
A novidade que queria salientar é tendência para a normalização destes métodos, o que é um bom sinal. Admito que falo em causa própria, pois conduzo alguns destes processos, embora os meus sejam baseados em sistemas de jogos de simulação e apoio à visualização, expressão e tomada de decisão. Independentemente de quem os conduz e implementa, estes processos interativos, ditos participativos, mas cujo objetivo são formas de colaboração, estão a generalizar-se.
Se há uns 10 anos não sentia um interesse generalizado quando os referia localmente, agora a realidade muda. Realizei vários, desde processos de planeamento de mobilidade, segurança urbana, economia circular, planos estratégicos de saúde, assembleias participativas de apoio aos orçamentos participativos e não só. Alguns na nossa região. Mas não sou o único a implementar na prática estes métodos, que podem ter muitas abordagens possíveis. Ainda esta semana o Município de Leiria, no âmbito da construção da candidatura a Capital Portuguesa da Cultura implementou um destes processos. Nesta mesma semana conduzi um dos meus processos baseados em jogos para apoio ao Plano de Saúde da Unidade de Saúde Local da Região de Leiria. Simulamos a região, identificamos problemas, soluções e aprofundamos como seriam implementadas e os impactos esperados, tudo em 3 horas.
Estas sessões participativas e colaborativos são marcos e habitualmente ficam na memória de quem nelas participa, havendo resultados finais para mostrar, coisa que não acontece em sessões públicas de braço no ar onde meia dúzia falam, quase sempre os mesmos do costume. São também bastante diferentes de meros inquéritos e questionários, pois neles falta interação e espaço de desenvolvimento, debate e construção, a tal criatividade e tomada de decisão que pode ser individual e colaborativa.
No entanto, estas sessões participativas e colaborativas requerem trabalho, recursos e tempo. Quando malconduzidas são meras perdas de tempo, pois não geram resultados úteis. Não basta juntar as pessoas numa sala, com mesas e post-its. É preciso um processo que alavanque as interações e acelere a geração de dados e informação filtrada para ser utilizada nos processos de decisão e planeamento. É preciso incluir múltiplos elementos de expressão e comunicação, pois nem todas as pessoas comunicam da mesma maneira, tal como formas de equilíbrio de poder, de decisão e meios rápidos de acesso à informação para validar posições e opções.
Os processos que referi, ainda que conheça apenas profundamente o que conduzi, tendem a ser apenas exequíveis através de participantes "representantes". No caso da Unidade Local de Saúde, foram 40 participantes da região, representando muitas entidades diferentes. Para fazer isto de forma generalizada para outros assuntos de interesse local, teriam de ser os municípios a implementar estes processos, seguindo, por exemplo, os casos de municípios como Cascais e Valongo que estão constantemente a fazer este tipo de iniciativas para apoiar a tomada de decisão política e têm divisões e departamentos especializados. Quem terá a coragem para implementar algo semelhante na nossa região?





