Última Hora

Não Entrar Derrotado

Julho 16, 2026 . 11:30
Opinião de Samuel Cardoso: "Com o tempo percebi que tentar não significa avançar de qualquer maneira. Há um tempo para aprender, treinar e preparar. Há um tempo para ouvir quem sabe mais do que nós e para reconhecer os nossos limites. Tudo isso faz parte do caminho"

Nos últimos dias ouvi várias vezes uma frase que tem servido de motivação em diferentes contextos: "Vamos fazer o que nunca foi feito."
Sem saber bem porquê, fez-me recordar outra que dizia ainda adolescente e que nunca mais esqueci: «Só me arrependo do que não fiz.
Na altura não queria dizer que devíamos fazer tudo sem pensar, nem que todas as decisões acabam bem. O sentido era outro. Se um dia tivesse de olhar para trás, preferia fazê-lo sabendo que tentei, do que viver preso à dúvida de nunca ter arriscado.
Com o tempo percebi que tentar não significa avançar de qualquer maneira.
Há um tempo para aprender, treinar e preparar. Há um tempo para ouvir quem sabe mais do que nós e para reconhecer os nossos limites. Tudo isso faz parte do caminho.
Depois chega o momento em que já não há mais nada para preparar. É preciso confiar e avançar.
O medo faz parte desse momento. E ainda bem que faz. O medo alerta-nos para os perigos, lembra-nos que existem riscos e obriga-nos a olhar para os desafios com responsabilidade. É como uma sirene: avisa-nos, mas não conduz a nossa vida.
Quem nos prepara somos nós. Somos nós que estudamos para um exame, treinamos para uma competição, preparamo-nos para uma entrevista ou procuramos desempenhar melhor a nossa profissão. O medo apenas nos recorda que vale a pena fazê-lo com seriedade.
Mas chega uma altura em que continuar a preparar já não é preparação. É apenas uma forma de adiar.
E é aí que muitas oportunidades se perdem.
Não porque faltasse capacidade. Mas porque deixámos que o medo decidisse antes de nós.
Todos temos momentos assim. A conversa que adiamos. O projeto que nunca começamos. A candidatura que nunca apresentamos. O desafio que recusamos antes sequer de tentar. A decisão que deixámos para "um dia", até que esse dia nunca chegou.
Entramos derrotados antes de a vida nos colocar verdadeiramente à prova.
Ao longo da História, nenhum povo realizou feitos extraordinários porque tinha garantias de sucesso. Os nossos navegadores não partiram porque tinham a certeza de regressar, nem porque conheciam tudo o que encontrariam. Partiram porque acreditaram que havia um caminho para descobrir. Prepararam-se o melhor que puderam. Depois confiaram no trabalho realizado e tiveram coragem para levantar as velas. Não sabiam o que existia para lá do horizonte. Sabiam apenas que ficar parados nunca lhes mostraria novos caminhos.
Talvez essa também deva ser a nossa atitude perante os desafios da vida.
O mesmo acontece com um atleta antes de uma competição, um aluno antes de um exame, um empresário antes de um investimento ou um jovem no primeiro dia de trabalho. Nenhum conhece antecipadamente o resultado. Mas todos podem escolher a atitude com que entram.
Talvez nunca consigamos fazer aquilo que nunca foi feito. Talvez nem sempre alcancemos a vitória. A vida não promete resultados nem sucessos garantidos. Mas há uma derrota que depende apenas de nós. É desistir antes de tentar. É permitir que o medo decida aquilo que a coragem ainda podia conquistar.
Porque ninguém faz aquilo que nunca foi feito... entrando derrotado.
"Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o Senhor, teu Deus, é contigo por onde quer que andares."
Mas isto sou eu.

Julho 16, 2026 . 11:30

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