Opinião: Jogos de apoio às estratégias e políticas autárquicas
Este ano vamos ter eleições autárquicas. Vamos ter milhares de candidatos a tentar cativar os seus eleitorados. Vão lutar pela eleição, por demonstrar que são mais competentes, mais preparados e que as suas ideias são as melhores. Vão assumir que sabem quais os problemas e as melhores soluções. No fundo, vão advogar que compreendem aquilo que os cidadãos querem. Mas será que sabem mesmo?
Temos imensos dados que nos podem ajudar nessa missão de análise. Dados estatísticos genéricos e específicos que ninguém consegue dar conta a não ser que utilize IA e modelos /processos adequados. Toneladas de indicadores e tendências. Mas, no entanto, é preciso mais. Para saber efetivamente o que as pessoas querem é preciso interagir com elas. Fazer perguntas não chega. Sabemos que a forma como uma pergunta é formulada pode influenciar a resposta, levando a enviesamentos de todo o tipo. Admito que alguns são involuntários, outros estão carregados de intenções. Existem outras técnicas, como os métodos de delphi, grupos focais e afins, que podem ser muito úteis mais assustar tanto quem quer recolher dados como quem participa nos próprios processos. Uma alternativa que tenho testado são os jogos sérios aplicados (serious games), aliviando e desconstruindo mitos.
Com os serious games conseguimos um equilíbrio, mantendo um processo estruturado, mas que ajuda a criar momentos de envolvimento e uma progressão de complexidade que ajuda a lidar com a gestão das motivações. Podemos criar soluções relativamente simples, com recursos analógicos, gerando plataformas onde as pessoas podem interagir e expressar as suas opiniões de múltiplas formas.
Tenho feito aplicações de serious games em casos onde os participantes representam modelos da realidade, ou seja, como veem o mundo ou um local em particular, por exemplo a sua autarquia, cidade, bairro, rua, etc. Depois, participantes e dinamizadores, podem definir prioridades, soluções, debater, votar e até orçamentar. Estes jogos podem ter modelos que exploram as sinergias entre decisões, efeitos diretos e indiretos. Ajudam a visualizar e têm uma forte componente de aprendizagem informal e multidimensional. Os participantes partilham, interagem, aprendem uns com os outros e podem fazer análises críticas construtivas às soluções e até às regras do jogo (o modelo em causa), intensificando o pensamento disruptivo.
Os nossos candidatos e futuros políticos podem ficar assustados com estes métodos, pois reforçam uma lógica colaborativa e desmontam a ideia de um político salvador, sapiente de tudo. Muito pelo contrário, estes métodos reforçam a ideia de que a realidade é complexa e que muitas vezes não existem soluções perfeitas, que as aparentes “melhores soluções” têm também efeitos que podem ser opostos ao que pretendemos. Ou seja, é preciso ter poder de encaixe, admitir que os outros podem ter ideias melhores ou saber mais sobre um assunto.
Isto exige uma atitude muito mais colaborativa do que tem sido a prática política das metáforas do “combate”, dos “adversários” e da “oposição”. Mas para isso precisamos de novos processos. Só aí podemos começar a dizer que temos uma aproximação ao que as pessoas realmente querem mesmo que não saibam responder diretamente.





