No apagão valeram-nos os jogos de tabuleiro
Recentemente, vários países europeus recomendaram aos seus cidadãos listas de objetos a ter para casos de emergência. Ou seja, conjuntos de bens, materiais e ferramentas que todas as pessoas deveriam ter consigo, em sítio acessível e prontos a serem utilizados. Parecia premonição, muitas dessas coisas deram imenso jeito durante apagão. Uma delas foram os jogos de tabuleiro.
Com o apagão, para além da falta de energia, faltou-nos atividade. De súbito, com o país a parar, ganhámos consciência do quanto dependemos da energia elétrica para tudo. Curiosamente, uma das coisas que consta em algumas das listas recomendadas para sobreviver a emergências são, surpresa das surpresas, jogos de tabuleiro. São as próprias autoridades que recomendam, como forma para passar o tempo e manter a ocupação, estes jogos funcionam apenas recorrendo à energia dos jogadores.
Os jogos têm o potencial de nos fazer desconectar da realidade e acelerar a noção da passagem do tempo. São os efeitos do círculo mágico, relacionados com a perceção de que é possível um nível de envolvimento e imersão que nos muda e transforma, incluindo o mundo em nosso redor. Parece exoterismo, mas, quando jogamos e estamos envolvidos, o tempo passa a correr e projetamo-nos nas entidades do jogo. É essa a razão pelo qual se incluem os jogos de tabuleiro nesses kits de emergência. Dependendo do jogo e das preferências dos jogadores, os jogos de tabuleiro ajudam a passar melhor o tempo. Quando jogado em grupo, são formas de socializar e interagir que exploram necessidades básicas sociais e transmitem experiências reconfortantes.
Os jogos de tabuleiro, também os de cartas, dados e muitos outros analógicos, estão entre nós desde que as sociedades geram cultura. Mas algo mudou nos últimos 20 anos. Vivemos a revolução dos jogos de tabuleiro, quase sempre apelidados e descritos como “modernos”. Mudanças radicais de design dos sistemas de jogos e suas representações gráficas e materiais garantem que hoje temos acesso a jogos que transformaram, amplificaram e elevaram as experiências de jogo a novos patamares. Se com um baralho de cartas convencional podemos gerar imensos jogos e cativar utilizadores, todos os novos mecanismos e técnicas de design narrativo, visual e de modelação de objetos abrem infinitas possibilidades no mundo dos jogos de tabuleiro modernos.
Obviamente que situações de emergências e catástrofe são pouco dadas a momentos de diversão. A possibilidade de nos podermos entreter individualmente ou coletivamente com estes novos jogos, podem de facto ajudar e contribuir para a nossa sobrevivência psicológica e emocional. O que temos estudado na academia sobre o poder e potencial destes jogos demonstra que esta revolução pode estar a mudar comportamentos e atitudes perante as tecnologias digitais e a forma como nos relacionamos socialmente. O estar presencialmente ganha novo valor. e Queremos verdadeiramente estar e experienciar momentos de mais qualidade. Neste caso, sobreviver pode depender da qualidade do jogo e da capacidade de nos envolver e cativar o tempo suficiente até pudermos avançar com a nossa vida.





