Paragens de autocarro que pararam no tempo
A rede de transportes públicos fora dos grandes centros urbanos é muito deficitária. Se nas zonas metropolitanas de Lisboa e Porto conseguimos encontrar alguma qualidade, quando viajamos pelas cidades mais pequenas, vilas e aldeias de Portugal, a situação piora até ao ponto de nem sequer existirem.
Mesmo em Lisboa e Porto estamos aquém de encontrar exemplos do estado da arte e do melhor que se pode ter. Faltam espaços para sentar, abrigos funcionais e os sistemas automatizados de informação e bilhética também deixam a desejar. Mas voltemos aos casos mais próximos das nossas realidades das médias e pequenas cidades. Em Coimbra espera-se que com o BRT (Bus Rapid Transit), que quer dizer algo como sistema rápido de transportes de autocarro, conhecido na gíria como metro-bus, haverá um forte investimento nas paragens de autocarros. Em Leiria continuamos a ter paragens pouco apetrechadas e em alguns casos nem sequer existem. Não que Leiria esteja muito pior que outros localidades. Está mais ou menos tudo ao mesmo nível que outras cidades comparáveis, pois tenho acompanhado sistemas de mobilidade e transportes noutras cidades portuguesas
O que quero aqui defender é a necessidade de investimento estratégico nas paragens de autocarros, combinada com o reforço dos percursos, redução dos tempos de espera e melhoria do material circulante a comunicar com um sistema digital centrado no utilizador. Só uma articulação dos autocarros num sistema os tornará mais atrativos, especialmente em percursos onde já existe procura, mas os automóveis continuam a dominar.
Hoje, uma paragem de autocarro é muito mais do que um abrigo. Pode ser um verdeiro centro (hub) híbrido de acesso a informação onde se pode interagir com sistemas digitais, aceder à internet via smartphone ou outro, mas onde o contacto humano presencial continua a acontecer. Um espaço transgeracional de interações analógicas e digitais. Para além do sistema de informação em tempo real, da bilhética inteligente, as paragens podem facilitar a acessibilidade a autocarros adaptáveis à pessoas com mobilidade condicionada. As paragens podem igualmente estar articuladas com pontos de carga e estacionamento para a mobilidade ciclável e não ciclável elétrica.
Obviamente que nem todas as paragens poderão ter todas as valências que descrevi anteriormente. Os custos seriam enormes. No entanto, uma rede bem articulada, com paragens centrais e outras com o mínimo de funcionalidades a cobrir todo o território e os principais pontos de acesso das populações podem ajudar a mudar o modo como se utilizam os autocarros. As novas gerações estão mais disponíveis para estas formas mais flexíveis de mobilidade e para deixarem os automóveis de lado. Agora resta que os municípios e os operadores comecem a criar as condições para que estas possibilidades sejam uma realidade.
Vamos ver quantos programas eleitorais autárquicos vão incluir medidas mais específicas e ir além da típica “aposta no transporte pública”, que depois nunca sabemos do que se trata.





