Compromisso: Uma Palavra que Vale Mais que um Currículo
Aos 48 anos, encontrei-me, pela primeira vez, numa lista autárquica. Sou o n.º 2 na candidatura para a Junta de Freguesia de Marrazes e Barosa. Confesso que não esperava. Mostrei abertura para colaborar, mas pensei que haveria muita gente mais qualificada. Afinal, é o que é. E quem fez a análise entendeu assim.
Neste processo percebi melhor o que está por trás da construção das listas. Há um enorme cuidado em encontrar pessoas disponíveis, credíveis, dispostas a acrescentar. Em alguns casos, escolhem-se nomes fortes para os cartazes, mas o verdadeiro valor não está na popularidade: está no compromisso. Não acredito que exista um “currículo profissional” ideal para autarca. A formação académica pode ajudar, sim. Sem noção de missão e sentido de entrega, porém, tudo se esgota depressa. O risco é a renúncia pouco tempo depois, quando a realidade do cargo exige mais do que a vontade inicial ou a visibilidade conquistada.
Em Portugal existem 308 câmaras municipais e 3.259 juntas de freguesia — mais 167 do que nas eleições anteriores. Será que em todas houve análise criteriosa? Será que todos os nomes têm perfil para o cargo? Gostava de acreditar que sim, mas tenho dúvidas. Ainda assim, vi de perto que, pelo menos na minha freguesia, houve cuidado em procurar os melhores, dentro da visão de quem elaborou a lista. É inevitável que nem todos encaixem na perfeição. É humano.
O que mais me marcou foi perceber que, entre os que se aproximam da política local, há de tudo. Pessoas genuinamente interessadas em servir e quem lute por um lugar pelo destaque. Aspirar a cargos não é errado. O problema é quando a ambição ultrapassa o propósito. No fundo, acredito que o que é nosso virá no tempo certo. O que não tiver de ser, não acontecerá, por mais esforço que façamos. E, mesmo que pareça resultar, mais cedo ou mais tarde a verdade vem ao de cima.
Não devemos procurar apenas a quantidade. Não faz sentido estar presente em todas as freguesias só porque sim. Quantidade não é qualidade. Vale mais ter menos listas, mas com pessoas realmente comprometidas. Sem essa base, a experiência torna-se um fracasso anunciado. Serviço público exige constância, trabalho invisível, disponibilidade para ouvir, paciência para decidir e humildade para corrigir.
Nos últimos meses vimos renúncias e suspensões de mandato que, salvo raras exceções, deixam a sensação de leveza no compromisso. Nas autárquicas isso pesa ainda mais, porque aqui a proximidade é diária: quem promete, deve cumprir. Compromisso também é comparecer nos dias sem brilho e continuar disponível.
Podemos pensar de forma diferente e pertencer a partidos diferentes. O propósito, porém, deve ser comum: servir. Servir da melhor maneira possível, com o que sabemos, com o que temos e com o que somos. No fim, é o compromisso que sustenta a confiança. É ele que distingue quem procura apenas um cargo de quem procura verdadeiramente contribuir. Compromisso é chegar, ficar, aprender, melhorar e prestar contas.
É isso que espero ver nas próximas autárquicas: menos protagonismo e mais entrega. Menos luta por lugares e mais vontade de trabalhar. Porque, sem compromisso, a política não serve as pessoas. E, afinal, não é para isso que lá estamos?
“Seja o vosso ‘sim’, sim, e o vosso ‘não’, não.”
Mas isto sou eu.





