Última Hora

Quando a Dor Não Pode Esperar

Setembro 10, 2025 . 17:30
Opinião: “Não podemos normalizar doentes à espera 13 horas por um médico. Não podemos aceitar que famílias tenham de escolher entre esperar indefinidamente ou pagar centenas de euros no privado. A saúde é um direito, não pode ser privilégio de quem tem carteira para pagar”.

Tudo começou numa manhã comum de trabalho. Por volta do meio-dia, a minha esposa ligou-me aflita: dores de cabeça, dores no corpo, dificuldade em engolir. Preocupado, saí de imediato para a levar ao hospital. Cumprindo os procedimentos atuais, tentei ligar para a Saúde 24, mas, enquanto conduzia, a chamada não passou de uma sucessão de gravações: escolha o idioma, escolha a situação, aguarde em linha… Quando cheguei a casa, ainda continuava em espera. Fui buscá-la e seguimos para o Hospital de Santo André, em Leiria — a chamada, entretanto, mantinha-se em espera. Deixei a minha esposa à porta das urgências, estacionei o carro e, mesmo quando já estava de novo junto dela, a ligação não tinha sido atendida. Meia hora depois, desliguei.
No hospital, fez a triagem e recebeu pulseira amarela. Três horas passaram e nada. Continuava com dores, sem posição para estar sentada. Fui pedir informações. A resposta foi fria: “não é comigo, fale na sala amarela”. Entrei e deparei-me com um cenário difícil de descrever: dezenas de macas lado a lado, um corredor quase intransitável, pessoas a sofrer à espera de uma resposta. Consegui falar com um médico, que me disse que só estava a atender utentes com mais de treze horas de espera. Treze horas!
Com esforço, falei com uma enfermeira. A informação foi dura: ainda havia trinta pessoas à frente da minha esposa. Três horas depois, e ainda trinta pessoas à frente. A perspetiva era clara: só seria vista na manhã seguinte. Foi nesse momento que tomei a decisão: tive de a levar para um hospital privado.
No privado, a diferença foi gritante. Foi atendida de imediato, com exames, análises e medicação. Mas também com custos. Só de consulta, 50 euros. Mais 20 euros por um teste rápido, mais 70 euros de análises, mais 30 euros de medicamentos e mais 50 euros de consulta de reavaliação. No total, mais de 200 euros. Uma vez, aguenta-se. Mas e se fosse recorrente? E se fosse para os nossos filhos?
Infelizmente, não foi caso isolado. No dia seguinte, a minha filha mais nova teve dor de garganta. Foi a minha esposa quem tratou de tudo: pouco depois das 14h levou-a ao centro de saúde, mas disseram que não havia vaga, apesar de estar aberto até às 20h e quase sem afluência. Teve então de ligar para a Saúde 24 e esperar mais de uma hora até atenderem. Só nesse momento marcaram uma consulta às 16h55. Uma hora a ouvir “a sua chamada encontra-se em fila de espera”.
É verdade que há férias, baixas médicas, limitações. Mas o que vi e vivi ultrapassa isso. Não podemos normalizar doentes à espera 13 horas por um médico. Não podemos aceitar que famílias tenham de escolher entre esperar indefinidamente ou pagar centenas de euros no privado. A saúde é um direito, não pode ser privilégio de quem tem carteira para pagar.
O que falta? Profissionais, sem dúvida. Mas falta também organização, respeito pelo utente, dignidade. Quem está do outro lado não é um número numa pulseira. É uma pessoa em sofrimento, que precisa de resposta. Quando o sistema público falha, não falha apenas a saúde: falha a sociedade que deveria proteger os seus cidadãos.
Não é justo. Não é sustentável. E não é digno. A saúde precisa de ser repensada. Não podemos continuar a adiar. Porque a dor não espera.
“Defende o direito do pobre e do necessitado.”
Mas isto sou eu.

Setembro 10, 2025 . 17:30

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