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Opinião

De bitaite em bitaite a mobilidade conduz a campanha eleitoral

Outubro 8, 2025 . 14:30
Opinião de Micael Sousa: "Existem alguns problemas consideráveis no sistema de transportes em Leiria. Está à vista de todos os que moram cá. Apesar do concelho de Leiria ter mais de 100.000 habitantes, a cidade não tem sequer essa dimensão e a dispersão territorial é considerável".

Assisti ao debate com os candidatos à Câmara Municipal de Leiria com interesse. Foi muito revelador, do que são, especialmente do quão impreparados alguns estão para abordar temas técnicos como a mobilidade, transportes e acessibilidade.
Alguém que se candidata a um município não tem de saber nem dominar todos os assuntos técnicos. Exige-se apenas que os candidatos comuniquem quais as suas prioridades. Isso sim, é aquilo que se deve destacar. E quando tudo é prioridade, nada é prioridade. Tal como nas urgências, quando tudo é para ontem, tudo fica para amanhã.
Aquilo que me causou mais choque foi a convicção com que os candidatos apresentavam medidas técnicas. Existem alguns problemas consideráveis no sistema de transportes em Leiria. Está à vista de todos os que moram cá. Apesar do concelho de Leiria ter mais de 100.000 habitantes, a cidade não tem sequer essa dimensão e a dispersão territorial é considerável. Esse é mesmo um dos principais problemas que tornam inviáveis a maioria das propostas apresentadas. Qualquer proposta de reforço de transporte público terá sempre este grande desafio para se adaptar a zonas urbanas de baixa densidade. Por isso, “metros de superfície” e outras propostas tendo para o irrealismo. O “metro bus” (BRT) que parece ser a solução mais viável, ainda assim é um grande investimento e que só funcionará se devidamente articulado com o restante sistema de transportes, partindo de uma fase inicial em que será economicamente deficitário. Vão andar autocarros vazios a circular até que os comportamentos mudem, quer seja por incentivos quer proibições de acesso dos veículos automóveis às zonas de maior procura.
Outro problema de fundo são as escolas. Quando as escolas não servem as respetivas áreas de residência geramos viagens desnecessárias. Desde a possibilidade de “escolher”, muitas vezes irracionalmente, a escola para colocar os nossos filhos, aos mega agrupamentos como o caso dos Marrazes, estamos a criar carga adicional sobre um sistema de transportes já de si deficitário.
Mas voltemos aos candidatos. Assusta quando os candidatos que têm a possibilidade de serem eleitos defendem verdadeiras barbaridades, típicas das conversas de café. Por exemplo, se alargamos estradas (com mais vias e não faixas de rodagem - ver o código da estrada), só vamos fazer com que as pessoas cheguem mais depressa aos pontos de estrangulamento. O problema são os nós rodoviários, e esses dificilmente se modificam sem destruição do edificado da cidade, elementos naturais ou outros. Isentar portagens vai incentivar ainda mais o uso do transporte individual. Pode ter efeitos negativos indesejados e inviabilizar outras estratégias, pois sabemos que a solução sustentável é o transporte coletivo. Mas nem tudo pode ser resolvido com transporte público em territórios como Leiria, exigindo-se sistemas mais flexíveis e híbridos. Para rematar, criar mais oferta de estacionamento no centro, só gera ainda mais atração de veículos, aumentando a pressão nos pontos de estrangulamento.
Estes foram apenas alguns exemplos. Podemos encher páginas sobre este e outros detalhes técnicos. O meu intuito era dar alguns exemplos em que as soluções mais óbvias nem sempre são as melhores, e que até podem agravar os problemas originais. Não se exigem certezas técnicas aos candidatos, apenas prioridades e capacidade de depois tomarem as melhores decisões tecnicamente validadas. Será que ficou mesmo claro quais são?

Outubro 8, 2025 . 14:30

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