Pós-eleições autárquicas: o que fica depois da mobilização dos cidadãos candidatos?
Agora que terminaram as eleições autárquicas, ficam várias questões. As campanhas para as eleições autárquicas são, provavelmente, os momentos em que os cidadãos mais se envolvem em atividades políticas. Vimos que os votos de protesto não tiveram o mesmo peso que têm tido nas mais recentes eleições legislativas. As pessoas votaram a pensar naqueles que iriam governar diretamente as várias autarquias.
Depois de tanta mobilização e interesse, com pessoas a vestir e assumir bandeiras partidárias, mesmo deixando as ressalvas da sua independência, o que fica afinal depois? Será que essas pessoas, pois a maioria não foi eleita, continuarão envolvidas nas lides políticas e nos processos de participação cívica e política? Suspeito que não, porque não existem espaços adequados, verdadeiramente destinados a esse efeito.
Sim, existem assembleias de freguesia, assembleias municipais e várias reuniões de executivos que os cidadãos podem assistir. Mas essas reuniões não estão pensadas para incorporar ativamente cidadãos não eleitos. Podem apenas assistir, com níveis de intervenção muito pontuais. Durante as eleições, mesmo que fossem pequenas tarefas, havia atividades em que os candidatos/candidatos podiam participar ativamente e expressar-se. Com tantas candidaturas e candidatos, sabendo a maioria que nunca seria eleito, temos a prova de que, quando devidamente mobilizadas e envolvidas, as pessoas participam em processos políticos. Mesmo havendo repulsa a partidos, as pessoas assumiram bandeiras e vestiram camisolas. Isto deveria fazer-nos refletir.
Faltam os tais processos e oportunidades para transformar esta vontade de participação em cidadania ativa, prática e contextualizada. Opções como os orçamentos participativos ajudam, mas estão longe de ser as únicas soluções, pois não correspondem a todas as motivações que levam as pessoas a participar nas campanhas eleitorais. Está relacionado com as relações humanas em que se baseia este envolvimento, no tipo de trabalho e interações, do ambiente performativo e festivo das campanhas. Isto para dizer que precisamos de processos participativos variados e em diferentes formatos, adequados aos vários tipos de objetivos de participação e tipos de participantes, preferências, gostos, contextos e motivações. Uma dessas soluções são as metodologias baseadas em jogos, mas existem muitas outras.
Fica um desperdício de mobilização por aproveitar. Desperdiça-se o contributo de todos os cidadãos que se mobilizaram na campanha eleitoral e persiste a necessidade de espaços em que mais diversidade possa ser incluída. Resta saber se os municípios vão querer implementar algo que transforme o desperdício em valor cívico. Será que vão a continuar a processos participativos pontuais apenas quando são forçados ou será que os vão integrar num sistema regular de apoio à tomada de decisão e melhoria dos projetos que pretendem fazer?





