Olaria da Bajouca e o caminho…
Uma roda de oleiro, um naco de barro, uma almofia de água, uma linha e um pedaço de cana rachada são os ingredientes necessários para moldar o barro, mas é necessário juntar o conhecimento e a habilidade para içar peças que nascem entre os dedos de mãos conhecedoras e “pulverizadoras” de amarelo e verde…
Em fevereiro de 1965 a sede da Comissão Regional de Turismo, no atual Mercado Sant’Ana, recebeu uma exposição de cerâmica popular. Tratou-se de uma mostra com peças do oleiro José Pedro (1908-1973), dos Milagres, que deu a conhecer “esses típicos e originais produtos, sempre interessantes e reveladores das aptidões dos povos rurais”, como relatou o jornal “O Mensageiro”, na sua edição n.º 2459 de 18 de fevereiro de 1965. Naquele espaço foi improvisada uma oficina de cerâmica que permitiu aos visitantes observarem como se moldava o barro.
O concelho de Leiria sempre foi uma terra de oleiros. Todavia, é na jovem freguesia da Bajouca, fundada em 1971, que ainda existe um veio de argila fina e clara. Tem sido o centro oleiro do concelho de Leiria, mantendo uma tradição de séculos. Ali perto ainda permanecem, esquecidos, resquícios de olarias e fornos, principalmente no Souto da Carpalhosa, concretamente no lugar do Vale da Pedra, assim como noutros locais do concelho que faziam parte da rede do comércio da olaria em direção a Torres Novas, Alcobaça, Torres Vedras, etc.
No entanto, foram os oleiros da Bajouca, agora com a associação “O Barro na Mão do Oleiro”, numa parceria com o Município de Leiria, que deram mais força ao movimento em redor desta arte. Já aconteceram exposições, uma delas no Parlamento Europeu, tem sido feita imensa recolha documental e foi dada formação através de oficinas de trabalho e residências artísticas a possíveis novos oleiros, sem esquecer a Exposição Nacional de Olaria, anualmente em Leiria, a caminho da nona edição, com um trabalho incomensurável de outra associação, a ABAD – Associação Bajouquense para o Desenvolvimento.
Leiria faz parte da Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de Cerâmica (APTCVC), estando esta integrada no Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial de Cidades Cerâmicas (AeuCC), um projeto de cooperação e de intercâmbio com o “objetivo de valorizar a cerâmica, no quadro das novas políticas europeias para os territórios”. É uma rede com cerca de 130 cidades europeias com vista à promoção do património cerâmico em “projetos e dinâmicas de valorização nacionais e internacionais”.
A olaria da Bajouca tem, agora, pelas “mãos” do Município, a oportunidade de usufruir das redes nacional e europeia. Um caminho que projetará a arte e o conhecimento transmitido pelos oleiros que prosseguem a dar vida a uma tradição milenar, continuando a semear os elementos identitários desta freguesia.
Leiria tem, na olaria da Bajouca, com características muito peculiares, um dos elementos que faz parte da identidade dos ofícios leirienses, contextualizado na sua histórica e espaço geográfico. Contudo, havendo a necessidade de um reconhecimento maior, mais que merecido, em breve a olaria da Bajouca será de novo notícia…





