Quando o Futuro Faz as Malas
Há histórias que nos acompanham porque revelam mais do que parecem. Nos últimos meses, voltei a pensar nos jovens que crescem entre nós — aqui, na freguesia, na cidade, no país — e que, apesar do esforço, da disciplina e do talento, acabam por perceber que os seus sonhos não cabem dentro das fronteiras que os viram nascer. Não por falta de coragem, mas por falta de condições.
A Alice tem 14 anos. Começou a sonhar alto no Pentatlo Moderno, mas percebeu cedo que, no nosso país, o talento e o treino não chegam. Faltam locais adequados, faltam horários viáveis, falta apoio. Foi-lhe explicado que, para progredir verdadeiramente, teria de sair. Está agora na Hungria, em regime de ensino doméstico, acompanhada pela mãe, num país novo, língua nova, rotina exigente. Não partiu por vontade de abandonar o que é seu, mas porque aqui não encontrou as condições mínimas para crescer ao ritmo que a modalidade exige.
A dança é outro exemplo disso. Aqui mesmo, em Marrazes, temos a Escola Annarella, reconhecida internacionalmente e responsável por formar bailarinos de excelência. Todos os anos, jovens talentosos chegam do estrangeiro para estudar em Leiria, mas, quando chega a hora de seguir carreira, os nossos melhores têm quase sempre de partir. Basta lembrar nomes como António Casalinho, que conquistou o mundo e hoje representa Portugal lá fora. É um orgulho enorme — mas também uma contradição: acolhemos jovens de vários países para aprenderem aqui, mas não conseguimos segurar os nossos quando chega a hora de viverem do seu talento.
E no meio disto, penso nos meus filhos. Chegam a casa às 22h: duas horas de treino, uma hora de viagem, dias cheios, cansaço acumulado. Fazem-no porque acreditam, porque querem. Mas até quando um jovem aguenta um esforço que o país não acompanha?
E depois há aquilo que vejo como docente. Este ano, ao iniciar as aulas na ESTG, perguntei aos alunos quais eram as expectativas para o futuro. A esmagadora maioria respondeu sem hesitar: “Acabar o curso e emigrar.” Disseram-no quase com naturalidade, como se fosse esse o destino lógico depois de anos de estudo. Hoje, um curso superior já não é uma porta de entrada para o país. É uma porta de saída.
Talvez tudo isto tivesse passado despercebido, não fosse a memória de um primeiro-ministro a dizer aos portugueses para emigrarem “se querem melhores oportunidades”. Muitos ouviram. Muitos acreditaram. Muitos foram. E muitos continuam a ir.
Não é só uma questão de desporto. É uma questão de futuro. De país. De prioridades. De visão. Estamos a formar jovens para o mundo, mas sem construir condições para que o mundo deles possa ser aqui. É bonito dizer que o talento não tem fronteiras — mas é triste perceber que, por vezes, é o próprio país que empurra esse talento para longe.
Não peço um país perfeito, mas peço um país que não desista dos seus jovens. Que lhes dê espaço para crescer, falhar, tentar outra vez. Que lhes ofereça condições para treinar, estudar, trabalhar e viver com dignidade. Que veja nos seus sonhos uma oportunidade, não um problema.
Porque um país que perde os seus jovens perde o seu futuro. E um país que os obriga a partir perde uma parte de si.
“Porque bem sei os planos que tenho para vós… planos de esperança e futuro”.
Mas isto sou eu.





