Última Hora

Tudo por um abraço

Dezembro 28, 2025 . 11:00
Opinião de Adélio Amaro: "E uma chuva ligeira invadiu o meu caminho, abriguei-me debaixo da copa de uma árvore, que ali estava, desde que sou gente, e só hoje olhei para ela e reconheci a sua importância".

Hoje, quando saí de casa, deixei o carro na garagem, e fui a pé de cabeça baixa. Não apetecia trabalhar. Farto das confusões, das ilusões, das funções, dos mandões, e muitos outros "ões" que fazem da nossa vida uns verdadeiros trapalhões aos trambolhões.
Depois, conforme fui caminhando e pontapeando as pedras da rua, feito puto reguila que vai contrariado para a escola, levantei a cabeça, apenas porque o tempo ameaçava chover, num dia tão nublado e cinzento como o meu interior, confuso, cheio de nuvens de nada e sem sonhos solarengos.
E uma chuva ligeira invadiu o meu caminho, abriguei-me debaixo da copa de uma árvore, que ali estava, desde que sou gente, e só hoje olhei para ela e reconheci a sua importância. De repente, como alguém que sente a dor de estar só, no meio de tanta gente, deu-me uma vontade enorme de abraçar aquela árvore. E se pensei assim o fiz. Tirei a gravata e atei-a como corda que atraca um simples barco num porto de pesca, pois aquela árvore passou a ser para mim "alguém" em quem poderia confiar. Deixei nela algo que me identificava perante os outros.
Continuei meu caminho, com o fato a ficar encharcado e o pouco cabelo que mora na caixa dos meus sonhos a ficar embaciado pela água que o invadia. Não demorou muito para ver o Zé Barbas, com o seu casaco rasgado e encardido, de calça rota a varrer o chão, chapéu engelhado com uma beata de cigarro na lapela, uma garrafa com rolha de cortiça já rocha no bolso do casaco e o seu rafeiro (Piloto) preso por uma fita. O Barbas agitava o caixote do lixo, aliás, como todos os dias eu via quando por ele passava de carro. Não resisti e ajudei-o a levantar a tampa do caixote e espreitei lá para dentro, com a cara de lado devido ao cheiro nauseabundo que dele brotava. Ele olhou para mim e disse:
– Que queres doutor?
Eu esgueirei o olhar na sua direção e apenas encolhi os ombros.
E, com receio de encetar conversa com ele, continuei o meu caminho. Em poucos segundos algo me fez voltar atrás. Cheguei junto do Zé Barbas e dei-lhe o meu casaco e ele, desconfiado, tirou o dele e pendurou-o na borda do caixote do lixo. Ele vestiu o meu e eu levei o dele, devolvendo-lhe a garrafa.
A chuva começou a apertar e vesti o casaco do Barbas. Na berma da estrada, todo encharcado, fui levando com a água que saltava dos carros que por mim passavam. Já no centro da cidade senti a importância de um simples raio de sol que se esgueirava por entre as nuvens. O seu calor a secar a roupa que me encharcava o corpo sabia bem... mas, o que me partia a alma era a forma estranha como as pessoas me olhavam, com aquele casaco sujo e molhado e cabelo achatado à cabeça.
Já com o sol a aquecer o dia, abandonei o casaco num caixote do lixo e fui trabalhar, embora muito incomodado por estar com a roupa amarrotada e suja...
No outro dia, voltei ao normal, fui trabalhar de carro, passei pela árvore que estranhamente tinha a minha gravata no chão, com lama seca, e poucos metros depois lá encontrei o Zé Barbas no caixote do lixo. Quando cheguei ao escritório tinha pendurado na porta o casaco que havia dado ao Barbas!
Interrogado com o que estava a acontecer, peguei no carro e fui ter com o Barbas. Quando o encontrei, saí do carro furioso e dirigi-me a ele dizendo:
– Que é isto pá?! Rejeitas o casaco que te dei? Pobre e mal-agradecido.
E, enquanto lhe dizia tais palavras, reparava que ele tinha o casaco sujo e roto que eu tinha levado e abandonado num outro caixote do lixo.
Ele, com uma calma incrível, com a beata apagada no canto da boca, que se perdia por entre as suas barbas enormes e despenteadas, respondeu-me:
– Ó doutor. O seu casaco era muito pesado... eu prefiro andar sujo e roto, nas bocas do lixo, que andar todo bonitinho com a alma amarrotada e suja... sabes porquê, doutor? Porque, mesmo vivendo na miséria, eu ainda consigo abraçar aqui o Piloto e o teu casaco prendia-me os braços, não me deixava abraçar...
Moral da estória: por vezes basta um abraço para que a vida volte a caber no peito.

Dezembro 28, 2025 . 11:00

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