Mudanças nas eleições presidenciais: estilos e objetivos
Ficou claro que a campanha para as eleições presidenciais não é mais apenas sobre eleger um ou uma Presidente da República. Trata-se de mais um espaço de exploração de programas políticos e exposição de personalidades. Utilizam--se os media para expor ideias políticas e dar destaque a pessoas que têm, obviamente, agendas políticas para defender. Mistura-se tudo e todos, com efeitos positivos e negativos.
A campanha está diferente, com candidatos a transmitirem ideias confusas, especialmente sobre os papéis e funções de Presidente da República. Assistimos a autênticos programas de governo, que sabemos serem da competência do Governo e não do/a Presidente da República (PR). Se o/a PR efetivamente tomasse medidas como os candidatos advogam em campanha, teríamos problemas institucionais e o próprio sistema democrático português ficaria em causa. Estes exageros, próprios das campanhas eleitorais, minam a confiança nas instituições, nos papéis e nas reais expectativas do que se espera dos eleitos.
Por outro lado, as próprias campanhas precisam de se reinventar. Ou seja, essa criatividade que leva a propostas muito para além do que o/a PR deve fazer, são reflexo da necessidade de mudanças de estilo. Os debates, os comícios, os discursos e os textos de opinião continuam a fazer sentido? Talvez, mas todos sentem que têm de fazer diferente. Por isso tentam explorar as redes sociais e interagir com os eleitores de todas as maneiras possíveis e imaginárias, facilmente caindo no ridículo.
O tema do ridículo está presente em todas as campanhas. Facilmente se cai nisso, especialmente pelo improviso e pelas imprevisibilidades das interações humanas. No entanto, o humor, a surpresa, o drama estão ainda aquém de serem utilizados para cativar a atenção das pessoas. Numa era em que tudo compete pela nossa atenção, as campanhas eleitorais são apenas mais uma dessas coisas.
Admito que o cargo de PR é da maior importância, solenidade e seriedade. No entanto, é desempenhado por uma pessoa, que, se não expressar múltiplas dimensões, gostos, preferências e sentido de humor, seguramente não será mentalmente saudável. É por isso, por idealizarmos este tipo e cargos para super-humanos ou uma espécie fantasiosa de robots sem emoções, que nos surpreendemos com eventuais situações ridículas.
Eu diria que as campanhas do futuro, mesmo para cargos tão pessoais e sérios como o de PR, terão de se saber humanizar. Gostava mais de ver os candidatos sem medo do ridículo, sem medo de errar, das falhas porque estão focados em aprender. Se com o crescente espetáculo mediático continuarmos a promover o artificialismo das personalidades políticas iremos caminhar para a insustentabilidade, pois qualquer que seja a personalidade, ela, mais tarde ou mais cedo, vai dececionar.
Por isso, espero que os candidatos se continuem a reinventar e testar novos modos de fazer campanha, sem medo do ridículo, mas conscientes de que estão a contribuir para mudanças sociais e políticas relevantes, marcando como se faz política para o futuro. Disso, nem a mais elevada solenidade do papel de PR está fora de jogo, mesmo que o objetivo de concorrer possa ser, simplesmente, passar outras mensagens para além de ganhar ou não as eleições.





