Última Hora

Opinião

Molhados, sujos, às escuras, mas unidos

Fevereiro 11, 2026 . 13:00
Opinião: “Escrevo este texto com a pouca bateria que tenho no portátil e a luz de um holofote solar. A contar com as previsões, vamos para 15 dias sem eletricidade em casa. Por isso, só me apetece desabafar. Sei que muitas outras pessoas estão na mesma situação ou pior no concelho de Leiria, no distrito e até além dele. Está tudo húmido, molhado, escorregadio, sujo e desconfortável. É assim que me tenho sentido, num constante desconforto”.

Sabendo que o meu texto iria coincidir com os 15 dias após a tem a tempestade Kristin pensei em falar sobre o planeamento do território que está na base da gritante falta de resiliência que todos percecionamos, dos problemas da administração política regional, da resposta de coordenação de meios e resposta. Mas, estou exausto, mentalmente e fisicamente. Deixo isso tudo para depois, quando o discernimento for outro.
Escrevo este texto com a pouca bateria que tenho no portátil e a luz de um holofote solar. A contar com as previsões, vamos para 15 dias sem eletricidade em casa. Por isso, só me apetece desabafar. Sei que muitas outras pessoas estão na mesma situação ou pior no concelho de Leiria, no distrito e até além dele. Está tudo húmido, molhado, escorregadio, sujo e desconfortável. É assim que me tenho sentido, num constante desconforto. A destruição vigora um pouco por todo o lado, ora visível ora inundada sobre uma água enlameada que nos assusta. Que falta faz o sol típico da nossa terra.
Com tudo isto fiquei a conhecer muito melhor os meus vizinhos. Todas as pessoas com quem me cruzei estavam mais disponíveis para interagir. Esta tempestade destruiu-nos, inundou-nos, mas conectou-nos. Ajudas e conselhos de todos os lados. Das pessoas que venderam telhas a recomendar que não se arriscasse a vida nos telhados, aos vendedores de material elétrico a alertar para os perigos dos usos descuidados de geradores. Pessoas que ofereciam o que era seu, bens materiais e o seu tempo. Fui até Pombal para conseguir umas telhas, na tentativa de reparar temporariamente o meu telhado, trazendo também para os vizinhos. Andei entre Leiria e Alvaiázere onde tenho também família, assim tendo passado por vários concelhos. Imensa destruição, desespero, casos dramáticos, mas a mesma atitude de partilha e entreajuda.
15 dias de um somatório de problemas, situações adversas, cada novo dia um novo desafio. Tanto que poderia ter sido evitado e prevenido, até mesmo mitigado se as respostas fossem outras. É isso que nos pesa, saber que podia ter sido diferente. Os avisos devidamente enquadrados não chegaram, as respostas tardaram. A prevenção uma miragem.
Uma tragédia destas, com pelo menos 16 mortos a registar, lembra-nos da finitude da nossa humanidade, da luta constante contra os elementos, contra e a favor de nós mesmos. Uma lembrança daquela que foi sempre a nossa maior arma perante ambientes que nem sempre são hospitaleiros. A resposta que nos fez prosperar como espécie foram as sociedades que inventámos. Ou seja, a nossa capacidade de congregarmos indivíduos em projetos e organizações coletivas. As sociedades que mais cooperam e competem perante os ambientes hostis ou deles tiram o melhor partido, são as sociedades que mais prosperam, pois utilizam o potencial dos seus indivíduos em sinergias que alavancam resultados outrora impossíveis de atingir.
Sozinho não teria conseguido mitigar e manter a minha casa e a dos meus familiares. Duvido que vocês também tenham conseguido sem ajuda de mais ninguém. Espero que saibamos utilizar mais este novo potencial intrínseco e natural para os desafios do futuro e que isto se institucionalize para sermos mais resilientes.

Fevereiro 11, 2026 . 13:00

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
1

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

1 Comentário
Continuamos à espera da electricidade, por Micael Sousa – Insustentável Leveza 2
3 meses atrás

[…] Também: Molhados, sujos, às escuras, mas unidos por Micael […]

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right