
Empresário vive entre prejuízos no negócio e os danos em casa
Há um mês sem eletricidade, Manuel Feitor enfrenta aquilo a que chama uma “crise dupla”: a sua empresa de aluguer de tendas está praticamente paralisada e a sua própria casa não tem as condições mínimas de habitabilidade.
Aos 77 anos, Manuel Feitor divide os dias entre a tentativa de manter de pé um negócio construído ao longo de três décadas e a adaptação forçada a uma rotina que descreve como sendo “à antiga”, onde cada gesto quotidiano exige mais tempo, esforço e improviso.
A habitação onde vive com a família situa-se no mesmo espaço onde funciona a Tendas Feitor, empresa fundada em 1994 e que, desde então, tem servido festas, feiras e eventos um pouco por todo o concelho de Leiria. Foi precisamente essa proximidade entre casa e negócio que agravou as consequências da subida repentina do caudal do rio Lis. A água galgou as margens e entrou de rompante pela propriedade, subindo cerca de 50 centímetros no interior das instalações. Portas empenadas, móveis danificados, divisões afetadas pela humidade e um rasto de lama espessa tornaram-se parte do cenário. Como se não bastasse, um poste derrubado pela força da corrente embateu numa estrutura junto à garagem, partindo a chaminé e provocando infiltrações no primeiro andar.
Durante dias, a família recorreu a baldes e bacias “para amparar aquela água toda”, numa tentativa quase desesperada de travar os estragos. “Nunca lá teve água como teve agora”, recorda o empresário, ainda incrédulo com a dimensão do sucedido.
A ausência prolongada de eletricidade veio agravar um contexto já de si difícil: as tarefas mais básicas tornaram-se operações demoradas e exigentes. A água para os banhos é aquecida manualmente, a confeção das refeições depende de soluções improvisadas e a organização doméstica obedece ao ritmo da luz natural. O pequeno gerador existente assegura apenas serviços mínimos na empresa, não tendo potência suficiente para alimentar simultaneamente as necessidades da habitação e da atividade profissional.
No plano empresarial, os prejuízos acumulam-se. Parte significativa do material de aluguer ficou submersa em água e lama, incluindo telas novas avaliadas em cerca de 30 mil euros que ainda não tinham sido utilizadas. A impossibilidade de recorrer a limpeza industrial, devido à falta de energia, obriga a processos manuais morosos e menos eficazes, atrasando a recuperação da atividade.
Com o calendário de eventos a avançar, Manuel Feitor conta ao Diário de Leiria que “algumas encomendas foram canceladas e determinados serviços acabaram por ser encaminhados para concorrentes”, fragilizando ainda mais a sustentabilidade do negócio.
Como se o impacto interno não bastasse, a força da corrente destruiu também a estrada de acesso à empresa. “A estrada foi toda embora”, descreve, apontando para um buraco com cerca de sete metros de comprimento por dois de altura que impede a circulação normal de viaturas.
Das viaturas da empresa, apenas uma se encontra operacional, por se encontrar fora do perímetro atingido pela inundação, mas a sua capacidade é reduzida, o que limita significativamente a resposta aos poucos trabalhos que ainda surgem. Manuel Feitor admite o desânimo: “Mais vale, se calhar, pôr a chave na porta, porque não vou conseguir sustentar isto assim”.







