
“Gostaria de inspirar e ajudar mulheres na área da tecnologia”
Como iniciou a carreira em engenharia de Software?
O meu sonho era ter seguido História ou Arqueologia, que não tem nada a ver com aquilo que eu faço neste momento. Toda a gente dizia que eu não ia ter trabalho, então o meu primo, que tinha tirado um curso de informática de gestão na ETPSicó, e como tinha a ver com computadores, eu até gostava, pensei, porque não? Em 2005, foi quando comecei o curso na ETPSicó. Até 2015 trabalhei em empresas bastante mais pequenas, a fazer só sites, projetos mais pequenos e, em 2015, quis ir para Lisboa para poder melhorar e para poder evoluir e perceber o que é que se fazia nas empresas grandes. Depois comecei a trabalhar para consultoras da IT, ou seja, nunca fui para um cliente final. Em 2018, queria algo internacional, queria tentar perceber o que é que se fazia lá fora, e então trabalhei para uma empresa holandesa durante quase dois anos. Depois troquei para uma empresa no Reino Unido, onde estive a trabalhar durante um ano. Estive a trabalhar para a Alemanha, eles tinham um escritório aqui em Faro. E depois, há um ano e meio decidi ir para uma empresa portuguesa que é a Coverflex.
Sente que alguma vez teve que provar mais por ser mulher?
Sim. Houve empresas em que eu sentia que tinha que trabalhar mais, em algumas quase que tinha que gritar para me ouvirem, se eu for olhar para trás, enquanto estava em equipas, eu, exceto agora a CoverFlex, tinha muito poucas mulheres na minha equipa. Normalmente era sempre só eu, ou só mais uma, e então essa falta de diversidade era notória.
Que importância têm estas iniciativas, como o ‘Portuguese Women in Tech’, na promoção da igualdade de género no setor tecnológico?
Há dois anos fui para as GeekGirls de Portugal, que também é uma comunidade dedicada a mulheres, onde fazemos meet-ups e até temos a nossa conferência anual, onde damos palco a oradoras só mulheres. Porque isso depois é outro choque, que é quando vamos a eventos de tecnologia, a maior parte dos oradores são sempre homens.
E então todas estas comunidades, seja a Portuguese Women in Tech, sejam as GeekGirls, têm esse grande impacto de empoderar mulheres, de as apoiar, empurrá-las um bocadinho para os palcos e fazê-las ver-se. Porque os homens têm muito isto, eles conseguem fazer-se ver, conseguem falar mais em público, não têm tanto este receio e nós ainda temos muito este síndrome do impostor.
E depois acho que aqui a Portuguese Women in Tech, para além das várias iniciativas que tem, esta dos prémios é algo que é muito publicitado e acho que isto faz com que se desmistifique um bocadinho que a tecnologia é só uma área de homens. Ou seja, ao mesmo tempo acho que pode inspirar outras mulheres que se calhar acham que não têm jeito ou que esta área não é para elas, é, e que de facto podem fazer a diferença.
Considera que Portugal tem evoluído nesse reconhecimento do talento feminino na tecnologia?
Eu vou ser sincera, eu acho que parece, porque hoje em dia a nível, por exemplo, de marketing, é muito bonito as empresas mostrarem que têm as minorias. Na empresa, temos mulheres, temos pessoas de cor, ou seja, têm todas estas minorias que estão presentes. Eu acho que isto por um lado é bom porque ajuda a que as empresas sejam mais diversificadas e, ao mesmo tempo, possamos tentar mudar a mentalidade, mas ao mesmo tempo também acho que muitas das empresas se aproveitam disto para fazer marketing e dizerem ‘Olha nós, somos uma empresa que tenta ser diversificada’.
Referiu na entrega que “é uma honra representar o talento que nasce fora dos grandes centros”. Sente que ainda existem essas desigualdades?
Eu acho que existe, mas muitas vezes parte das pessoas que vivem nas terras mais pequenas. Porque eu lembro-me na minha altura, quando eu dizia que ia para Lisboa trabalhar, toda a gente dizia ‘Ai Liliana, mas a cidade é tão grande e são tantas pessoas e tantos perigos’. Eu nunca fui esta pessoa, eu senti isso. Mas eu quero ir para Lisboa, eu quero evoluir, eu quero ver o que é que há lá fora. A mensagem que eu tenho é que acreditem e que nunca desistam. E que tentem ver mais, ou seja, que saiam desses meios e vejam mais. Tentem viajar, nem que seja dentro do próprio país, tentem falar com outras pessoas, tentem procurar, porque existem vários eventos em várias zonas do país, não só de tecnologia, mas noutras áreas, ou seja, terem essa curiosidade de estar com pessoas da área que pretendem e de conhecer mais, de falar, de fazer networking. E isso que expande os horizontes e faz-nos perceber que há tanta coisa que nós podemos ver, que nós podemos aprender.
Quais são os objetivos que traça para o seu futuro profissional?
Um dia, gostaria de ser CTO de uma empresa. Sei que ainda tenho alguns anos pela frente, mas é um objetivo. Continuar, sem dúvida, a inspirar e ajudar mulheres na área da tecnologia. E continuar o trabalho que vou fazer agora. |







