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Opinião

O boom da construção e a capacidade limitada das rodovias

Maio 7, 2026 . 09:30
Opinião de Micael Sousa: "Parece-me evidente que o boom da construção que estamos a viver vai trazer consequências para um sistema rodoviário já bastante fragilizado"

Começo aqui o texto de opinião com uma observação, mais ou menos, óbvia. A nossa infraestrutura viária não vai mudar significativamente e, se mudar, isso será a muito longo prazo. Ou seja, sempre que surgem novos empreendimentos imobiliários, neste momento de fortíssima procura por habitação, será impossível, a curto prazo, lidar com os seus efeitos no sistema de transportes. Se um edifício multifamiliar ou um serviço/comércio de dimensão média pode ser realizado em pouco mais de um ano, as rodovias não mudam tão rapidamente. As vias existentes vão ter de suportar a carga adicional; as novas deslocações desse novo local para todos os outros que já existem, circulando por infraestruturas que já podem estar no limite da capacidade ou até já ultrapassadas.
O que referi anteriormente é ainda mais problemático quando falamos particularmente dos nós rodoviários. Essas são as obras mais dispendiosas e de mais difícil implementação, especialmente porque falta espaço. Se as rodovias podem ser alargadas em algumas secções, e até podemos construir novas de raiz, subsiste sempre o problema das ligações. Como ligar às existentes, já sobrecarregadas e sem fazer demolições? Este problema vai continuar a agravar-se, especialmente em cidades como Leiria, totalmente dependentes do automóvel para as deslocações do dia a dia.
Atualmente tenho pouca proximidade com o poder local, pelo que não estou a par dos projetos e das intenções de expansão das infraestruturas rodoviárias, mas parece-me evidente que o boom da construção que estamos a viver vai trazer consequências para um sistema rodoviário já bastante fragilizado. Diariamente, sentimos o trânsito a entupir em Leiria. Obviamente que não é nada semelhante ao que acontece nas grandes metrópoles, mas para a nossa dimensão já causa problemas a vários níveis, desde os impactes ambientais até aos desperdícios e atrasos que gera. Afeta a nossa qualidade de vida e o nosso desenvolvimento económico.
As soluções preconizadas pelas diretrizes técnicas gerais de mobilidade sustentável são amplamente conhecidas, mas ainda não foram implementadas. A intermodalidade e a adequação de cada modo de transporte a cada trajeto do percurso. Implicam mudar hábitos e comportamentos. Claro, coisa que não é simples. Vimos como, no passado recente, isso gerou reações viscerais, que apenas serviram para adiar a resolução dos problemas que hoje nos entopem. Por isso, tem-se evitado fazer mais e adotar soluções mais radicais, mas, sem elas, sem testá-las e experimentá-las, nunca saberemos se podemos aspirar a soluções que tragam uma verdadeira mudança na forma como nos movemos em Leiria.
Escrevo estas palavras, acabado de sair de uma sessão de teste de uma ferramenta baseada em jogos de simulação que estou a construir para um projeto europeu, no qual 7 cidades vão testar formas de remover o excesso de automóveis das suas estradas, criando um melhor sistema de mobilidade. Seguramente que mal não nos faria usar ferramentas destas para Leiria também.

Maio 7, 2026 . 09:30

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