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Quando o cliente passou a funcionário

Maio 21, 2026 . 12:30
Opinião: “Talvez valha a pena refletir sobre outra questão: até que ponto aquilo a que chamamos ‘comodidade’ não será também uma transferência silenciosa de trabalho para o consumidor? Fazemos cada vez mais tarefas que antes eram realizadas por funcionários pagos. E, curiosamente, continuamos a pagar praticamente o mesmo — ou, em alguns casos, até mais”.

Há alguns anos, ir a um restaurante de fast food significava fazer o pedido a um funcionário ao balcão. Hoje, em muitos casos, fazemos o pedido numa máquina, levantamos a comida, limpamos a mesa no final e ainda fazemos a separação do lixo. Tudo isto de forma natural, quase automática.
E a pergunta é simples: pagamos menos por isso?
Nas bombas de combustível acontece algo semelhante. Antigamente, havia funcionários a abastecer os carros. Hoje, somos nós que fazemos praticamente tudo. Escolhemos a bomba, abastecemos, pagamos e seguimos viagem. Mais rápido? Muitas vezes, sim. Mais cómodo? Em alguns casos, também. Mais barato? Nem sempre.
Nas lojas de roupa, escolhemos as peças, procuramos tamanhos, experimentamos, pagamos em caixas automáticas e, em certos locais, até tratamos das devoluções sem qualquer contacto humano. O mesmo acontece em aeroportos, supermercados, bancos, aplicações digitais e serviços de apoio ao cliente substituídos por menus automáticos e assistentes virtuais.
E atenção: não se trata de ser contra a evolução tecnológica, a automatização ou a reciclagem. Tudo isso trouxe vantagens reais. Há mais rapidez, mais autonomia e, em muitos casos, mais eficiência.
Mas talvez valha a pena refletir sobre outra questão: até que ponto aquilo a que chamamos “comodidade” não será também uma transferência silenciosa de trabalho para o consumidor?
Fazemos cada vez mais tarefas que antes eram realizadas por funcionários pagos. E, curiosamente, continuamos a pagar praticamente o mesmo — ou, em alguns casos, até mais.
Um dos exemplos mais curiosos talvez seja o sistema de devolução de embalagens. Compramos a bebida, pagamos um valor adicional pela embalagem, guardamos as garrafas ou latas em casa, transportamo-las até à máquina de devolução, tratamos do processo e recebemos um talão. Em algumas situações, esse valor nem sequer é devolvido diretamente em dinheiro, ficando associado a novas compras.
Mais uma vez, somos nós a fazer todo o processo.
Claro que a reciclagem é importante. Claro que devemos ter consciência ambiental. Mas também é legítimo questionar se o modelo está realmente equilibrado e se o consumidor tem plena noção da quantidade de tarefas que passou a assumir sem sequer dar por isso.
Talvez estejamos tão habituados à palavra “evolução” que deixámos de questionar o preço invisível dessa evolução.
Porque a tecnologia não elimina apenas trabalho pesado ou repetitivo. Em muitos casos, elimina também empregos, transfere funções e transforma o cliente numa peça ativa do próprio sistema.
E o mais curioso é que já quase ninguém estranha.
Pelo contrário. Se uma bomba tiver funcionário, parece antiquado. Se uma caixa automática falhar, ficamos irritados. Se tivermos de esperar por atendimento humano, sentimos que estamos a perder tempo.
Adaptámo-nos depressa, talvez depressa demais. Não para rejeitar a evolução. Mas para deixar de refletir sobre ela.
Porque o progresso pode — e deve — trazer melhorias reais. Mas talvez não devêssemos aceitar de forma tão automática um modelo em que o consumidor trabalha cada vez mais… enquanto continua a pagar exatamente o mesmo.
“O trabalhador é digno do seu salário.”
Mas isto sou eu.

Maio 21, 2026 . 12:30

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