O debate estratégico
A Procuradoria-Geral da República tem em mãos mais um caso de corrupção, desta vez no Partido Socialista, a encher o tubo onde de um lado entram mais casos e do outro não sai quase nada em termos de julgamentos e de condenações. Trata-se de uma máquina altamente improdutiva, a juntar há máquina da economia com um crescimento pouco convincente, nomeadamente porque o PRR não cumpre nenhum dos seus programados objectivos e o modelo económico nem sequer é questionado.
Como centro de poder e de debate político a Assembleia da República é uma vergonha e não apenas devido ao Chega e ao seu líder. Todos os partidos, com maior ou menor participação, contribuem para o clima de chacota generalizada, risos alvares e propostas obscenas. A qualidade pessoal e política da generalidade dos senhores deputados já viu melhores dias e a cada nova eleição a situação piora.
A crise política que vivemos não é uma crise de ausência de poder, na medida que existe um governo em funções e todos os órgãos da governação existem com os seus dirigentes a funcionar, trata-se antes de uma crise de qualidade. Crise evidente de navegação à vista, sem uma qualquer orientação estratégica e sem uma visão educada sobre o futuro do País, que a ausência de planeamento torna mais evidente. Planeamento que apesar de tudo existiu com Cavaco Silva e onde Portugal brilhou no final do anterior regime de Marcelo Caetano e que se perdeu na voragem do curto prazo.
O Presidente da República parece querer compensar o regime de improvisação em que vivemos através do estudo das dificuldades do sector da saúde e através de um relatório sobre os efeitos resultantes da tempestade do Katrin no centro do País. É um esforço certamente positivo de análise, de que podem resultar algumas propostas, mas com o risco de mais tarde ou mais cedo isso ser considerado uma crítica ao governo, o que tem sido evitado por enquanto. É, todavia, mais um método de intervenção no curto prazo que penso seria melhor evitar.
A intervenção do Presidente da República pode ser mais bem interpretada se colocar na agenda política de forma pedagógica os grandes desafios de dimensão estratégica que o País enfrenta, por exemplo, o modelo económico. Questões que habitualmente fogem da agenda política, como seja o número excessivo de pequenas empresas comerciais e a falta de grandes e de médias empresas industriais, o que compromete o crescimento das exportações, bem como o estudo sobre a organização do Estado, podendo ser colocada na agenda política a questão da profissionalização dos dirigentes, em substituição das nomeações partidárias, vicio que está na raiz dos problemas existentes, por exemplo, na saúde e na justiça. Ao tratar questões que residem fora da habitual agenda política do governo, evita-se a crítica e é introduzida uma nova dimensão estratégica no debate político.
Em resumo, a intervenção do Presidente da República tem tudo a ganhar se direcionada para os elementos mais estratégicos da governação, os quais não existem na habitual agenda do governo, seja porque são temas essenciais direcionados para o futuro, seja porque constituem uma forma dos portugueses ganharem alguma consciência da sua importância estratégica, seja porque apenas o Presidente da República está em posição de o poder fazer. Por exemplo, dando sentido ao debate em sede de Conselho de Estado.





