Jogar e simular para treinar para os fogos que aí vêm
Junho está à porta. E, com ele, a ameaça que todos os anos nos visita sem pedir licença: a época dos incêndios rurais. Num ano em que a região de Leiria já foi castigada pela tempestade Kristin, que derrubou entre cinco e oito milhões de árvores no concelho, a vulnerabilidade ao fogo não é uma hipótese remota ou teórica. É uma certeza que se agrava se não nos prepararmos. Árvores caídas, biomassa acumulada, encostas sem coberto vegetal estruturado são combustível à espera de ignição, espalhado por quilómetros de floresta ainda em recuperação.
O problema não é falta de legislação; temos imensa. Temos também planos municipais, planos de emergência, planos de gestão florestal. Temos as peças teóricas feitas, mas a prática operacional e de simulação é sempre pouca. O problema central é que o conhecimento nem sempre chega às pessoas certas, no momento certo, de forma a fazer diferença real no terreno. Uma comunidade que nunca simulou uma evacuação não evacua bem quando o fumo aparece na encosta. O mesmo para os meios de resposta rápida. Uma autoridade local que nunca tomou decisões sob pressão não decide bem quando o vento muda de direção e o fogo corta a única saída da aldeia. Um presidente de câmara que nunca geriu uma crise simulada hesita quando a crise é real e cada minuto conta.
A preparação para emergências é, antes de tudo, uma questão de treino. Não de intenção, não de legislação, não de orçamento, embora tudo isso importe. É de treino que falo. E o treino exige repetição, exige falhar em segurança, exige aprender com o erro antes que o erro seja irreversível.
É aqui que os serious games entram. Não como curiosidade académica nem como novidade de conferência, mas como ferramenta concreta de preparação comunitária e institucional. Existem imensos jogos, alguns desenvolvidos por mim, que podem ajudar: colocar decisores, técnicos e comunidades a gerir crises em ambiente controlado, a cometer erros que ensinam e preparam, a perceber que a coordenação não nasce espontaneamente, mas é construída sessão a sessão, cenário a cenário. Criei o EMCE: City Blackout na instituição para a qual trabalho nos EUA (CAPTRS) em torno de um apagão urbano e de tempestades severas. Quando o apagão ibérico de abril paralisou a Península Ibérica durante horas e as tempestades do inverno devastaram o nosso distrito, foi a confirmação de que os cenários que desenhámos refletem riscos reais, presentes e urgentes.
Os incêndios não são diferentes. Já temos em desenvolvimento cenários específicos para a gestão do fogo rural, para a evacuação de populações em zonas de interface urbano-florestal e para a coordenação entre a proteção civil, os bombeiros e as autarquias quando os recursos são escassos e as decisões têm de ser tomadas em segundos. Cenários que qualquer município da região poderia usar para treinar as suas equipas. Cenários que qualquer escola, associação ou junta poderia adaptar para sensibilizar quem vive colado à floresta.
Preparar comunidades exige prática. E a prática pode começar numa mesa, com um jogo, antes que tudo fique demasiado sério.





