
Da Venezuela chegam notícias de dor a uma família residente no concelho de Alcobaça
Desde que os fortes sismos atingiram a Venezuela, Marjorit Marín vive com o telemóvel sempre por perto e com o coração ‘preso’ às notícias que chegam do outro lado do atlântico. Sempre que recebe uma mensagem da família através do WhatsApp é sinal de alívio, mas quando o silêncio se prolonga a ansiedade instala-se.
Os sismos de magnitude 7,2 e 7,5, registados com menos de um minuto de intervalo e seguidos por mais de duas dezenas de réplicas, provocaram um rasto de destruição na Venezuela. Com epicentro a cerca de 200 quilómetros de Caracas, os abalos fizeram ruir ou danificaram gravemente dezenas de edifícios na capital e na região de La Guaira, uma das mais afetadas.
Até à hora de fecho desta edição, as autoridades contabilizavam pelo menos 1.430 mortos e e 3.328 feridos. Entre elas estão também portugueses e lusodescendentes. Segundo o mais recente balanço do Ministério dos Negócios Estrangeiros, morreram 51 portugueses e lusodescendentes, enquanto 84 permanecem desaparecidos ou incontactáveis.
É com o “coração apertado” e em permanente inquietação que Marjorit Marín, venezuelana de 33 anos residente há três anos numa aldeia do concelho de Alcobaça, acompanha tudo o que acontece no país onde nasceu.
A tragédia também atingiu a sua família. Um primo e a mulher, com cerca de 50 anos e residentes no estado de La Guaira, ficaram debaixo dos escombros. Ambos sobreviveram e encontram-se hospitalizados, mas ainda não sabem que os filhos, de 20 e 17 anos, morreram soterrados, conta Marjorit Marín, emocionada.
As notícias chegam-lhe através de familiares. Em muitos casos, explica, a única forma de localizar sobreviventes passa por várias plataformas digitais criadas para identificar desaparecidos e indicar em que unidades hospitalares se encontram.
A mãe e os familiares mais próximos vivem em Higuerote, a cerca de hora e meia da zona mais afetada, e escaparam apenas com um susto. Ainda assim, o cenário que lhe descrevem é de “desespero e ansiedade”. “Ainda há pessoas debaixo dos escombros. Precisamos de médicos e pessoas que ajudem a procurar as que ainda estão debaixo dos escombros”, alertou.
Apesar de reconhecer o apoio internacional que já começou a chegar ao país, considera que a resposta do Governo venezuelano “não está à altura” da dimensão da tragédia.
Residente em Portugal desde 2023, sente que a distância torna tudo mais difícil. “Temos amigos que perderam familiares diretos. É desesperante para nós, porque queremos fazer mais”, acrescentou.
Foi por isso que decidiu disponibilizar a própria casa para servir de ponto de entrega de bens que serão posteriormente enviados para a Venezuela, como alimentos nao perecíveis, medicamentos e produtos de higiene. Quem pretender contribuir pode contactar Marjorit Marín através do e-mail: [email protected] ou do número +351 927 011 822.
Apesar da destruição, recusa perder a esperança. Marjorit Marín recorda que a Venezuela já enfrentou um grande sismo em 1969 e acredita que, mais cedo ou mais tarde, conseguirá voltar a erguer-se.
Contudo, não pondera regressar ao país onde nasceu. A venezuelana considera que a instabilidade política e social que se vive há vários anos na Venezuela retirou a tranquilidade à população. “A Venezuela deu-me uma oportunidade de vida e lá está a minha mãe, mas os meus filhos estão adaptados a Portugal. Aqui temos mais qualidade de vida e um futuro mais tranquilo”, afirmou, reconhecendo que o país “não tem tido um momento de paz”.
Enquanto as equipas de socorro continuam a realizar operações de busca e resgate, o pensamento de Marjorit Marín permanece em quem continua à espera de ser encontrado. “Penso nas crianças que ficaram sem mãe, nos médicos que estão completamente esgotados e nas pessoas que ainda podem ser salvas”.
Apesar da dor, deixa uma mensagem de esperança aos compatriotas. Aos venezuelanos que vivem fora do país pede que apoiem as campanhas solidárias e enviem bens essenciais. Aos que permanecem na Venezuela deixa um apelo: “Tenham esperança e vontade. O povo unido prevalece e vence”.
Portugal juntou-se aos países que enviaram equipas de busca e salvamento para a Venezuela. A missão portuguesa ficará instalada em Catia la Mar, em La Guaira, uma das regiões mais afetadas e onde reside uma expressiva comunidade portuguesa e lusodescendente.







