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Opinião: As Sementes que Não Vemos Crescer

Julho 2, 2026 . 19:30
Opinião de Samuel Cardoso: "Passamos anos a semear sem saber o que aconteceu às sementes. Algumas poderão nunca germinar. Outras crescerão em silêncio, longe do nosso olhar. Talvez nunca saibamos quantas pessoas ajudámos, encorajámos ou inspirámos."

Há algumas semanas aconteceu-me algo simples, mas que me ficou na memória. Cheguei à escola onde dou aulas, dirigi-me ao balcão para levantar a chave da sala e preparava-me para mais uma daquelas conversas rápidas do dia a dia. Bom dia, a chave da sala, obrigado, até logo.
Mas, dessa vez, a conversa foi diferente.
"Você é o que escreve no Diário de Leiria, não é?"
Confirmei.
"Li o seu último artigo. Faz todo o sentido."
A conversa não durou mais do que alguns segundos. Agradeci e segui para a aula. Não foi a primeira vez que algo semelhante aconteceu. Também já tive alunos que, entre sorrisos, me mostraram uma publicação nas redes sociais e comentaram: "Professor, encontrei-o aqui."
São momentos breves, mas deixam uma marca curiosa. Porque quem escreve raramente sabe quem o lê.
Curiosamente, numa edição do Diário de Leiria encontraram-se dois artigos lado a lado. Num deles assinalava o meu quinquagésimo artigo publicado. No outro, um colega cronista questionava-se se valeria a pena continuar a escrever textos de opinião.
A pergunta ficou comigo.
Não porque esteja a pensar deixar de escrever. Enquanto tiver algo para partilhar e o jornal continuar a abrir-me esta porta, pretendo continuar a fazê-lo. Mas aquela questão levou-me a refletir sobre algo muito maior do que a escrita.
Como sabemos se aquilo que fazemos faz realmente diferença?
Talvez por deformação profissional goste de números. Na engenharia medimos quase tudo. Dimensões, temperaturas, pressões, potências ou caudais. Estamos habituados a confirmar se algo funciona através dos resultados. Mas a vida nem sempre nos dá essa possibilidade.
Há pessoas que veem rapidamente o fruto do seu trabalho. O agricultor vê nascer a planta. O comerciante vê concretizada a venda. O atleta vê o resultado refletido no cronómetro.
Mas existem outras sementes que levam anos a germinar. E algumas nunca chegamos a vê-las crescer.
Como medir o impacto de uma conversa entre pai e filho, a influência de um professor que desperta a curiosidade de um aluno ou o efeito de uma palavra de incentivo dada no momento certo? Como medir a dedicação de quem ajuda os outros sem esperar reconhecimento?
Simplesmente não conseguimos.
Quem educa filhos raramente vê de imediato os frutos daquilo que ensina. Quem dá aulas não sabe quais as explicações que ficarão gravadas na memória dos alunos. Quem treina atletas não sabe qual o conselho que será recordado no momento decisivo.
Talvez aconteça o mesmo com muitas outras áreas da vida.
Passamos anos a semear sem saber o que aconteceu às sementes. Algumas poderão nunca germinar. Outras crescerão em silêncio, longe do nosso olhar. Talvez nunca saibamos quantas pessoas ajudámos, encorajámos ou inspirámos.
Mas isso não significa que nada aconteceu.
Significa apenas que nem tudo o que tem valor pode ser medido.
E talvez essa seja uma das grandes lições da vida: continuar a ensinar, a ajudar, a servir, a educar e a partilhar aquilo que aprendemos ao longo do caminho. Não porque conhecemos o resultado, mas porque acreditamos que vale a pena lançar a semente.
"Aquele que sai chorando enquanto lança a semente voltará com júbilo, trazendo consigo os seus molhos."
Mas isto sou eu.

Julho 2, 2026 . 19:30

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