
“AdCL é hoje do ponto de vista económico e financeiro uma empresa mais robusta”
Se tivesse de resumir o seu mandato em três decisões-chave, quais seriam?
Em primeiro lugar foi fazer uma proposta do estudo de viabilidade económica ou financeira para o resto da concessão. Ou seja, deixar a AdCL apetrechada com um documento estratégico para gerir os seus próximos anos, nomeadamente um plano de investimentos altamente exigente, que vai ter até 2033, em previsão, de cerca de 316 milhões de euros e, portanto, deixar este instrumento validado pelos acionistas e o caminho preparado para um intenso processo de requalificação de infraestruturas e de equipamentos. Estamos no final de um ciclo em que todas estas infraestruturas estão a necessitar de requalificação. E o grande exemplo é a ETAR do Choupal, em Coimbra, que vai entrar numa grande requalificação, com investimento de 36,8 milhões de euros, deixando-a preparada para novos desafios. E este instrumento serve para organizar e orientar a empresa e a sua consolidação do ponto de vista da sua trajetória. A AdCL foi a primeira empresa do grupo Águas de Portugal a ter esta geração de EVF (Estudos de Viabilidade Financeira) já pronto para ser promulgado. Esta foi uma ambição estratégica. A segunda, foi preparar a empresa para novos desafios organizacionais. Fizemos um conjunto de alterações do que é o organograma funcional da empresa adaptando-o às novas exigências. Por exemplo, fizemos alterações na direção de compras e logísticas, segregando funções, no sentido de clarificar processos para ganhar também eficiência dos processos.
Dê um exemplo...
Começámos a implementar no final de 2024, mas essencialmente em 2025, aquilo que é um Despacho Central da AdCL. Ou seja, um centro de telegestão onde estamos a monitorizar 24 horas, 365 dias por ano, todo o é desempenho das infraestruturas da AdCL. Recebemos todas as informações de como é que os processos estão a decorrer, qual é o sentido dos níveis dos reservatórios, se o nível de cloro nos reservatórios é o adequado, se os processos e as elevatórias do saneamento estão a funcionar. Isso permite uma resiliência ao sistema e uma capacidade de reação que também permite níveis de otimização e de eficiência. Outras decisões estratégicas foram tomadas consoante as vivências e as necessidades, como aquilo que aconteceu com as tempestades. Até há bem pouco tempo, a AdCL tinha atividades “core” ( que é externalizada a um prestador de serviço), nomeadamente no abastecimento e em parte do saneamento. E o Covid tinha-nos demonstrado que o caminho não era por aí. Temos que ter no quadro da empresa a capacidade de interagir diretamente com os processos e manter os processos com a qualidade que marca AdCL e com os níveis de serviço que nós pugnamos. E fomos por esse caminho. Por exemplo, o abastecimento de água à cidade de Leiria, ao município de Leiria, estava com prestador de serviço e considerou-se que isso não era um bom processo. E os mais recentes acontecimentos, como a tempestade Kristin, mostraram a vantagem disto.
O que ficou por fazer? E qual a razão?
Dou-lhe um exemplo. A operação e a manutenção da ETAR de Espinho, que é uma grande infraestrutura, que é a infraestrutura mais a norte da AdCL, ainda está em “outsourcing”. Ou seja, ainda temos um prestador de serviço que faz a operação e a manutenção. Parece-me que também a esse nível vamos ter que fazer a análise de quais os ganhos de eficiência para termos esta dimensão internalizada, até porque é uma infraestrutura crítica com elevada dimensão e, portanto, faz sentido pensar. E outra das questões que não foram cabalmente resolvidas foi a articulação com algumas entidades gestoras em baixa, porque todos estes sistemas foram criados numa lógica no final do século passado, início deste século, e previram que os sistemas evoluíssem de uma determinada forma, que depois não aconteceu. Os sistemas em baixa trazem, nomeadamente, em saneamento, muitos caudais que não são os caudais que nos deviam chegar. Trazem muita água da chuva, muita água do escoamento pluvial, mas também predial. Quem tem uma vivenda, normalmente, liga o seu pátio ao sistema de saneamento, ou seja, estamos a trazer para os sistemas em alta, da AdCL, um excesso de caudal para ser tratado que não é adequado que esteja aqui. E esse investimento de conciliação entre os sistemas em baixa, estou a falar da Águas de Coimbra, das águas da região de Aveiro, estou a falar do SMAS de Leiria ou da APIN, esses sistemas ainda não conseguem ter as redes separativas. Gostava de ter ido mais além nesta articulação e na melhoria do sistema, como se foi, por exemplo, em Cantanhede, com a ETAR das Cochadas.
Qual foi o momento mais difícil que enfrentou na liderança da empresa?
Houve alguns. Já nos esquecemos o que foi o Covid. E quando tivemos que fornecer água a toda a gente e ninguém sentiu falta dela. Ninguém pensou nos trabalhadores da AdCL e eles estiveram a trabalhar. Enquanto as pessoas estavam em casa a fazer teletrabalho, esses trabalhadores estavam cá a visitar instalações, a verificar os reservatórios, a cumprir aquilo que é a missão normal. A AdCL cumpriu a sua e foram momentos difíceis, com um nível de incerteza muito elevado. Esse foi um momento difícil, mas que a AdCL esteve à altura do seu desafio e cumpriu integralmente o que estava destinado. Aí foram produzidas boas decisões e os trabalhadores estiveram envolvidos em todo este processo de uma forma muito consistente que cumpre continuar a recordar. Outros momentos difíceis foram agora a gestão do grau de destruição e do grau de recomposição daquilo que são os sistemas de abastecimento e de saneamento após as tempestades de janeiro e fevereiro. Foi aqui um processo de cinco semanas que a maioria das pessoas não tem a noção do que foi a exigência de quando não havia energia, quando não haviam comunicações, continuar a captar água, que necessita de energia.
Falamos de grandes investimentos e isso, muitas vezes, reflete–se nas tarifas cobradas ao consumidor. O consumidor paga um preço justo pela água?
A tarifa associada ao serviço prestado em água e saneamento é uma conjugação de fatores complexos. Hoje os níveis de eficiência da AdCL são superiores àqueles que eu tinha quando cheguei em 2019. Mas o mundo também mudou, ou seja, hoje temos mais exigências do ponto de vista daquilo que são os processos de tratamento, nomeadamente de saneamento, que depois têm repercussão na tarifa. Vou dar-lhe um exemplo. Um dos grandes produtos e problemas que temos que gerir diariamente é o encaminhamento de lamas. O saneamento, o tratamento dos esgotos geram, além da água tratada por processos biológicos, muitos milhares de toneladas de lama, que, depois, precisa de ser encaminhada para destinos finais, compatíveis com a sua reutilização, nomeadamente junto à agricultura. Quando cheguei à AdCL, o custo médio de encaminhamento de uma tonelada de lamas era à volta de 30 euros. Hoje já vamos em contratos de 130 euros a tonelada. Isto, claro, vai repercutir-se nos custos da tarifa. Quem valida a tarifa é o regulador, ou seja, há uma entidade reguladora, que é a ERSAR, que, consoante os nossos níveis de eficiência, decide a tarifa. Portanto, quem decide a tarifa é a ERSAR, a AdCL não tem capacidade de decisão do preço da água ou do preço do saneamento.
Mas na sua ótica há margem para reduzir essas tarifas? Ou vamos assistir a um aumento?
Todos nós somos mais exigentes com a qualidade dos serviços. Queremos cada vez mais que a água seja melhor, isto é, manter a qualidade que já tem, que os reservatórios estejam requalificados e higienizados para não termos “stress”, legionelas e outras bactérias nos sistemas de abastecimento. Portanto, os custos estão associados a essa qualidade. Relativamente ao saneamento e nomeadamente ao tratamento da água, há um conjunto de licenças que vão exigir níveis de desinfeção microbiológica muito superior. Isso tem custos. Ou seja, mas isto é a sociedade, são os nossos valores societais que impõem estas pressões sobre o serviço de água, que têm que ser compensados com tarifa. Não há outra forma. No entanto, o centro de compostagem é líquido que vai reduzir custos. Mas as pressões sobre a tarifa estão sempre cá porque somos mais exigentes.
O Despacho Central da AdCL é um centro de telegestão onde monitorizamos 24 horas, 365 dias por ano, tudo o é desempenho das infraestruturas
Mas na sua ótica há margem para reduzir essas tarifas? Ou vamos assistir a um aumento?
Todos nós somos mais exigentes com a qualidade dos serviços. Queremos cada vez mais que a água seja melhor, isto é, manter a qualidade que já tem, que os reservatórios estejam requalificados e higienizados para não termos “stress”, legionelas e outras bactérias nos sistemas de abastecimento. Portanto, os custos estão associados a essa qualidade. Relativamente ao saneamento e nomeadamente ao tratamento da água, há um conjunto de licenças que vão exigir níveis de desinfeção microbiológica muito superior. Isso tem custos. Ou seja, mas isto é a sociedade, são os nossos valores societais que impõem estas pressões sobre o serviço de água, que têm que ser compensados com tarifa. Não há outra forma. No entanto, o centro de compostagem é líquido que vai reduzir custos. Mas as pressões sobre a tarifa estão sempre cá porque somos mais exigentes.
Qual é atualmente o nível de perdas na rede?
Temos níveis de perdas de água baixíssimos, ou seja, não atingimos 2 % de perdas de água. A AdCL é muito eficiente naquilo que são as suas perdas de água.
Então, considera que não se está a desperdiçar um recurso hídrico?
Sim, considero. Estamos a levar aos cidadãos água em quantidade e em qualidade e esse é um elemento bem visível neste último mandato. Nós aumentamos os caudais vendidos. Vendemos mais água e tratamos mais caudais de saneamento, por isso é que a AdCL é o hoje do ponto de vista económico e financeiro uma empresa mais robusta, que passou a ter um negócio superior. Passámos de um volume de negócio de 52 milhões para 60 milhões em três anos.
Pode considerar-se que a AdCL está alinhada com metas ambientais exigentes?
Completamente. Somos signatários da Agenda da Economia Circular da CCDR. Somos das empresas que mais evidencia o seu contributo para a circularidade dos recursos.
AdCL fica com um documento estratégico para gerir os seus próximos anos, com um plano de investimentos de cerca de 316 milhões de euros
Qual é, então o maior desafio ambiental para a empresa?
O maior desafio ambiental é criar infraestruturas resilientes para tempestades como a Kristin e que exista a capacidade de rapidamente se repor o normal funcionamento dos sistemas ou criar uma boa articulação entre as empresas em alta e em baixa. Não sou muito apologista das discussões sobre a escassez dos recursos hídricos. Nós temos recursos hídricos adequados e em quantidade, temos é que os gerir bem. Em 2022, num concelho perto de Coimbra desde metade do mês de agosto até o dia 5 de setembro não existia água nos reservatórios e foi um exercício muito complexo. Tivemos que ativar a entrega de água por autotanques. A AdCL está a acompanhar essa dificuldade, está a criar agora um nível complementar subterrâneo, nesse concelho, para quando falta água nessas situações
Mas há escassez de água no território da AdCL?
Não. Mas um dos maiores desafios não é escassez de água. É sim ter água disponível em situações críticas. Ou seja, termos a garantia que em todos os momentos temos água para fornecer aos nossos clientes. E esse é um esforço. O desafio é ter uma empresa resiliente que perante as dificuldades consegue ter um plano B para reagir de forma adequada.
Em termos de gestão, de alguma forma a gestão da empresa foi influenciada por decisões políticas?
Nunca, nunca. O meu Conselho da Administração nunca tomou qualquer decisão que tivesse um cariz político ou fosse condicionado por dimensão política.
Na sua ótica, o modelo da gestão de água em Portugal funciona?
Respondendo diretamente à sua pergunta e sem ter dúvida, funciona. Se tem que ser melhorado, tem. Agora funciona porque é um país diverso, entre um litoral povoado e um interior menos povoado, entre um alentejo em que toda a gente está concentrada numa povoação e outras zonas do país em que o povoamento é disperso, portanto, os desafios são diferenciados no território. Quando cheguei em 2019 tinha dúvida se o modelo de alta-baixa funcionava. Hoje tenho a certeza que sim. A AdCL é que tem que captar e tratar água para os seus clientes ou tratar a água dos seus clientes, o desígnio da AdCL é ter processos otimizados. Isso é o grande desígnio de uma empresa em Alta, é ter otimização de processos para suprir as dificuldades. Já as empresas em Baixa, como Águas de Coimbra, APIN, SMAS de Leiria têm que estar focados naquilo que são os seus clientes e a relação com os seus clientes. Ou seja, são coisas distintas.
Fecha este ciclo satisfeito ou com sensação de missão incompleta?
Saio com a sensação de dever cumprido e que foi um privilégio ter passado pela AdCL. Foi um “desafio de 24 horas”, mas fico com a sensação que deixo uma organização melhor do que quando cheguei.
Dada a experiência que adquiriu durante este tempo (2019/2026), que conselho deixaria para o próximo presidente da AdCL?
Que continue a olhar para o território com as nuances e as diferenças que tem. Porque o território e a região Centro têm essa característica. É muito heterogéneo nas suas necessidades, nas suas especificidades. E um serviço essencial como é este, tem que estar atento a essas diferenças, a essas nuances que o território tem e que os seus interlocutores locais e regionais têm. Não é mesma coisa o interior e o litoral.
Aceitaria continuar se lhe fosse pedido?
Não faria um terceiro mandato. Como eu disse em janeiro de 2025, o terceiro mandato é sempre penoso. O primeiro é para aprender, o segundo para fazer. Se me perguntassem, de uma forma muito tranquila diria que, logicamente, há coisas que ainda gostaria de ter feito.







