
Duarte Mendes diz que Luís Tinoco era um compositor virtuoso, genial e compreensivo
O compositor José Luís Tinoco, que morreu na quarta-feira, em Lisboa, era muito virtuoso e exigente, genial, não fazia cedências quanto à arte, mas era ao mesmo tempo compreensivo, atento aos problemas dos outros, disse à Lusa o cantor Duarte Mendes.
Duarte Mendes, que foi um dos militares do 25 de Abril, trabalhou de perto com José Luís Tinoco, nomeadamente nos festivais RTP da Canção de 1971 e 1975, em que interpretou, respetivamente, “Adolescente”, com um poema de Yvette Centeno, e “Madrugada”, com letra e música do compositor, que representou Portugal na Eurovisão, em Estocolmo, em 1975, tendo-se classificado em 16.º lugar.
Em declarações à agência Lusa, Duarte Mendes afirmou que trabalhou com José Luís Tinoco especialmente nos festivais. "Fora disso encontrávamo-nos com amigos em casa dele”, afirmou, lembrando alguns problemas de saúde do compositor, que “estava muito reduzido ao seu espaço residencial”.
“Talvez por isso era mais denso o convívio com os amigos que iam a sua casa, prolongando-se essas tertúlias até altas horas da noite. Ele deitava-se muito tarde, mas criava um ambiente que não é de esquecer”, lembrou.
“O período mais intenso” que Duarte Mendes trabalhou com Tinoco foi em 1975, quando fez a canção “Madrugada”, disse o cantor, referindo essa experiência para demonstrar como Tinoco era exigente.
“A forma da ‘Madrugada’ teve uma versão inicial que tinha uma subida de tom que criava problemas de natureza vocal. [Era] até musicalmente mais rica, mas que exigia mais trabalho, e não foi fácil convencê-lo a simplificar e a dar uma forma mais direta do ponto de vista da apreciação, ou comercial, isto é, do acolhimento que pudesse vir a ter, e que a transformava numa canção mais lógica, mas menos rica do ponto de vista harmónico, mas mais fácil de entender no período curto em que as canções são ouvidas e sujeitas a classificação” na Eurovisão, contou.
José Luís Tinoco “era muito virtuoso e muito rico nos conhecimentos que tinha, nomeadamente em relação à música e à influência do jazz", sublinho Duarte Mendes.
O cantor referiu também outras áreas onde Tinoco se evidenciou, nomeadamente na pintura e na arquitetura - em que se formara -, onde era igualmente exigente, disse.
“Era um indivíduo com um nível de exigência superior, mas de uma compreensão, cordialidade e entendimento também invulgares”, afirmou.
Fora do trabalho na música, com ele, havia “a tertúlia”, que “era um momento de aprendizagem, de convívio e de boa disposição”.
José Luís Tinoco “era virtuoso, genial e, como pessoa, era sociável, de conciliações, com o seu grau de exigência, mas com uma compreensão pela opinião dos outros, ou para os problemas que lhe punham para as versões mais ou menos arrojadas que criava”, disse.
A carreira musical de Duarte Mendes, um dos capitães de Abril, centra-se sobretudo no início dos anos de 1970, marcada em particular por canções de José Luís Tinoco, como "Adolescente" e "Cidade Alheia", e de José Niza e José Calvário, como "Gente", sem esquecer o álbum "Fala do Homem Nascido", sobre a poesia de António Gedeão, que deu ao cantor outra das suas interpretações mais conhecidas: "Lágrima de Preta".
Após o 25 de Abril, e apesar de algumas participações em espectáculos e projetos musicais, Duarte Mendes privilegiou a carreira militar. Em 2022, agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.







