
Autarca aponta resiliência e proteção civil como prioridades atuais
A recuperação de equipamentos públicos, o reforço da Proteção Civil e a preparação do concelho para futuros fenómenos extremos têm marcado, atualmente, o mandato de Paulo Vicente à frente da Câmara Municipal da Marinha Grande desde outubro de 2025. O autarca admitiu que o município enfrenta dificuldades estruturais e financeiras significativas, agravadas pelos danos provocados pelos incêndios de 2017 e a recente passagem da depressão Kristin pela região.
“Reportamos cerca de 135 milhões de euros de prejuízos em infraestruturas, água e saneamento, vias de comunicação e edifícios municipais”, afirmou Paulo Vicente ao nosso jornal, sublinhando que esta realidade “está condicionada ao fator financeiro da própria autarquia”.
Entre as prioridades do executivo marinhense está a requalificação de equipamentos públicos, numa lógica de maior preparação para situações de emergência. Na freguesia de Vieira de Leiria, a Escola Padre Franklin, atualmente encerrada devido aos danos sofridos, será transformada num “centro escolar resiliente”.
“Esta escola vai se tornar um centro escolar resiliente e, como lhe introduzimos uma componente mais resiliente, vai ser um dos equipamentos críticos na freguesia da Vieira”, explica o presidente da Câmara, numa entrevista concedida a propósito do Dia do Município, celebrado este mês.
O projeto prevê que a escola possa funcionar como abrigo em caso de calamidade, integrando equipamentos preparados para resistir a fenómenos extremos. Segundo Paulo Vicente, a proposta apresentada ao Ministério da Educação foi “bastante elogiada” e chegou mesmo a ser apontada como exemplo pelo ministro da Educação, Fernando Alexandre.
Também o pavilhão da Vieira, já adjudicado e a aguardar visto do Tribunal de Contas para o arranque das obras, será adaptado com funções de apoio em cenários de emergência. “Estamos preocupados em construir um pavilhão resiliente e que também possa albergar pessoas em caso de emergência”, referiu.
Na Marinha Grande, a Escola Guilherme Stephens será igualmente remodelada com valências semelhantes. Para Paulo Vicente, os sucessivos episódios extremos, desde o furacão Leslie aos incêndios e às intempéries que assolaram o país em janeiro, demonstraram que o concelho precisa de reforçar a capacidade de resposta, reconhecendo que o concelho revelou fragilidades. “Temos que reconhecer: fomos mais fracos do que fortes, porque ninguém estava preparado para esta situação”, admitiu.
Desta análise resultaram várias medidas de reforço da Proteção Civil, entre elas a contratação de um engenheiro florestal, a abertura de vaga para um técnico de Proteção Civil e a criação de uma equipa de sapadores florestais. O município está também a avançar com trabalhos de limpeza e desobstrução de caminhos florestais em áreas privadas. O objetivo inicial era intervir em 115 quilómetros, mas os trabalhos já ultrapassaram os 158 quilómetros. “O nosso objetivo é fazermos 180 quilómetros de caminhos florestais na mata privada”, explicou Paulo Vicente, acrescentando que a medida pretende facilitar o acesso dos meios de socorro e reduzir o risco de incêndio.
Segundo o autarca, o município tem contado com o apoio do Ministério da Administração Interna, da Proteção Civil, da Força Aérea, do Exército e dos Bombeiros na preparação para a época de incêndios.
Na área do saneamento, a autarquia já identificou várias necessidades de expansão e remodelação da rede no concelho, incluindo intervenções no Pilado, Garcia, Moita e Praia da Vieira. “Temos esse levantamento feito, mas isto tudo está também dependente dos meios financeiros que possamos alocar a esses novos investimentos”, apontou.
Tempestade atrasa “reestruturação” da autarquia
Em outubro de 2025, Paulo Vicente e o seu executivo municipal, do Partido Socialista, assumiram a liderança da Câmara com prioridades e objetivos que já vinham a traçar mesmo antes de tomarem posse. Entre estas urgências estabelecidas estava a criação de uma comissão interna para a “reestruturação dos serviços” municipais, que pretende “arrumar a casa” durante o seu mandato, até 2029.
“Nomeámos uma comissão interna dentro da câmara para começar a trabalhar nesse sentido, na reestruturação orgânica dos serviços”, revelou o autarca.
Ao nosso jornal, Paulo Vicente conta que os trabalhos para esta renovação estavam “bastante adiantados quando surgiu o comboio das tempestades” o que levou à sua suspensão. “Estivemos cerca de dois meses a sofrer, e ainda estamos a sofrer as consequências”, lamentou.
Esta comissão, que integra técnicos e trabalhadores da câmara, tem auscultado os diversos setores da Câmara Municipal para posteriormente “fazerem uma proposta dessa reestruturação”. “Penso que neste momento ainda está a trabalhar mas que já estará em fase final”, afirmou o autarca. Reforçou ainda que “este tem sido um trabalho demorado e paciente, porque os elementos desta comissão também são trabalhadores da câmara, e isto é trabalho acrescido”.
“Não podemos estalar os dedos e recuperar tudo”, assegurou Paulo Vicente, acrescentando que “neste momento” vários procedimentos e planos que estavam idealizados pelo mandatário estão “acumulados por todos os procedimentos e toda a responsabilidade" que a autarquia tem na recuperação do concelho.
As prioridades do executivo municipal continuam a ser aquelas que levaram à eleição mas está acrescida de todos os prejuízos que a Câmara Municipal da Marinha Grande tem agora ao seu encargo após a passagem da depressão Kristin no concelho.






