
Observatório defendido para monitorizar casos de violência contra médicos
O psiquiatra João Redondo defende a criação de um observatório que monitorize casos de violência contra profissionais de saúde e a importância de criar um ambiente de apoio. O médico foi convidado a proferir uma palestra dedicada ao tema ‘Violência, assédio, burnout’, numa sessão da Ordem dos Médicos que, através do Conselho Sub-regional de Leiria, distinguiu os profissionais que assinalam 25 e 50 anos de inscrição na instituição. Nesta sessão, João Redondo abordou a saúde e o bem-estar dos médicos no local de trabalho e as implicações que tais circunstâncias acarretam para os médicos e os doentes.
Na sua intervenção, o coordenador do Gabinete Nacional de Apoio Médico da Ordem dos Médicos destacou a crescente preocupação com a violência contra profissionais de saúde, com cerca de 40% enfrentando agressões físicas, verbais ou psicológicas. A importância da literacia sobre esses problemas foi enfatizada, assim como o papel crucial dos municípios na prevenção da violência. O médico partilhou a sua experiência em lidar com questões de violência e o aumento do burnout, desde a década de 90 do século passado, quer nas famílias, questões com os refugiados, tráfico de seres humanos, e também nas questões de violência entre profissionais de saúde, especialmente os mais jovens.
Dos vários estudos e análises efetuadas sobre este tema, João Redondo citou um inquérito realizado pelo Gabinete de Segurança do Ministério da Saúde em 2023, segundo o qual, dos 16 292 profissionais de saúde que responderam, 23% relataram ter sofrido um episódio de violência, sendo que, no caso dos médicos, sofreram violência 24% dos 2 532 que participaram.
João Redondo defendeu, por isso, a necessidade de um observatório para monitorizar estes casos e a importância de criar um ambiente de apoio para os colegas, apontando para a urgência de ações estruturais para enfrentar esses desafios e a necessidade de uma estratégia coletiva para promover a saúde e o bem-estar na profissão médica. “Das classes mais afetadas é a dos profissionais de saúde”, sublinhou o psiquiatra. “O problema é quando o stresse se transforma em sofrimento”, lembrou, afirmando a pertinência em desenvolver campanhas de “tolerância zero” no sentido de eliminar e reduzir os fatores de risco, promover os fatores protetores e potenciar a resiliência dos médicos.
Ordem dos Médicos homenageia duas gerações de profissionais
Os profissionais que assinalam 25 e 50 anos de inscrição na instituição foram homenageados, numa sessão que celebrou o percurso de duas gerações de médicos. Ao intervir enquanto anfitrião, o presidente do Conselho Sub-regional de Leiria da Ordem dos Médicos, Nuno Rama, sublinhou, desde logo, o “orgulho e gratidão” pelo exemplo dos colegas homenageados, numa cerimónia emotiva que decorreu no Centro de Diálogo Intercultural de Leiria. “Esta é uma homenagem com uma longa tradição na nossa Ordem, é um momento especial para reconhecer o trabalho incansável dos médicos (…). Cada um de nós carrega a responsabilidade de cuidar da vida, do bem-estar dos nossos doentes, que é uma missão que exige conhecimento, exige empatia e um compromisso inabalável com a Ética e a Humanidade”, disse ainda.
João Mariano Pego, membro do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos, destacou a importância da cerimónia, sublinhando que as medalhas simbolizam uma vida de serviço, dedicação e compromisso com os doentes. Dirigindo-se aos médicos que completam 50 anos de inscrição, enalteceu o papel de uma geração que considerou pioneira na transformação da medicina portuguesa: "Foram a verdadeira força motriz que impulsionou o desenvolvimento da medicina e elevou os cuidados prestados à nossa população". O dirigente da Ordem recordou ainda que estes profissionais iniciaram a sua atividade numa época marcada por recursos limitados e pela ausência de muitas das tecnologias hoje consideradas essenciais, acompanhando, ao longo da sua carreira, profundas transformações científicas e clínicas.
Destacou também o seu contributo para a construção e consolidação do Serviço Nacional de Saúde, bem como o papel desempenhado na formação de sucessivas gerações de médicos. Entre os momentos mais marcantes do discurso, João Mariano Pego evocou o Serviço Médico à Periferia, classificando-o como "um profundo ato de justiça social" que permitiu levar cuidados de saúde às populações mais isoladas do País. "O Portugal moderno e o nosso sistema de saúde assentam nos alicerces que construíram", afirmou. A sua intervenção incluiu também uma homenagem aos médicos já falecidos que partilharam este percurso, reconhecendo o legado que deixaram na vida dos doentes e na profissão.
Aos médicos que celebram 25 anos de inscrição, João Mariano Pego destacou a capacidade de adaptação a uma medicina profundamente marcada pela inovação tecnológica, pela digitalização e pela crescente especialização. Recordou igualmente o papel desempenhado durante a pandemia de Covid-19, período em que muitos estiveram "na linha da frente, na gestão de crises inéditas", assegurando a resposta dos serviços de saúde num contexto de enorme exigência. Na sua opinião, esta geração representa, hoje, "o motor vivo da medicina do presente e a garantia do nosso futuro", assumindo responsabilidades na liderança clínica, na investigação e na formação dos mais jovens.
Deixou ainda um apelo à necessidade de reforçar as políticas de promoção da saúde e prevenção da doença, defendendo uma mudança de paradigma na organização dos cuidados. "Precisamos de inverter a equação: o nosso foco principal não deve ser apenas tratar a doença quando ela surge, mas apostar cada vez mais na promoção da saúde e na prevenção da doença. Educar, prevenir e proteger", afirmou.







