27 dias sem eletricidade em casa
Ainda não é desta que vou utilizar este espaço de opinião para falar de medidas de planeamento e prevenção. Talvez fique para o próximo. Sim, estive 27 dias sem energia em casa, o que me obrigou a ter de encontrar soluções alternativas para viver e trabalhar. Quando soube do evento não estava em casa. Só consegui chegar durante a noite, depois de comprar o primeiro bilhete de avião que me apareceu. Ou seja, não consegui tratar de nada imediatamente, pelo que tive infiltrações inevitáveis. Depois, o sistema de energia solar que tinha montado, planeado para me dar alguma autonomia, foi destruído com o temporal. Tinha apenas as restantes ferramentas e reservas que costumo ter preparadas. Power banks, UPS de emergência, pilhas e lanternas. Serviu no momento.
Organizamo-nos em casa dos meus pais, também afetados, mas pelos menos eles tinham um fogão a gás e uma lareira que permitia aquecer a casa e água, por essa via e pelo sistema solar para tomar banhos. Na minha casa nada disso funcionava pois tinha sido destruído. Vivemos alguns dias nesta nova organização, até que consegui comprar um gerador para aguentar a casa com o mínimo de condições. Depois, mais umas baterias, uns painéis solares e sistema de apoio portátil. Tive de comprar uma Starlink pois trabalho maioritariamente de forma remota. Tudo isto teve um custo enorme. Valeu também o apoio da Startup Leiria que me permitiu ir trabalhar para as suas instalações duas semanas.
Tudo isto aconteceu com o funcionamento dos telemóveis limitado, quanto se tratava de seguros da casa e do carro, enquanto se tentava encontrar telhas para reparar, isolar como se podia, controlando a água que entrava, ver se o sistema elétrico não tinha sido afetado pela água que inevitavelmente entrou. Sim, tive um pequeno incêndio elétrico também. Mas, tenho sempre extintores por perto e sei o básico para isolar o sistema.
Tive de recorrer várias vezes a refeições fora de casa, especialmente para tentar ter algum conforto e autonomia. Fiz publicações diárias nas redes sociais, como forma de desabafar, divulgar o que se passava na zona onde vivo, pois dezenas de pessoas estavam a ser afetadas, mas também com alguns conselhos e sugestões de como ultrapassar isto. Relatei o desespero do contacto continuo e infrutífero com as autoridades e os responsáveis da E-Redes.
Para mim foram 27 dias disto, com pesados impactos no meu trabalho. Tenho muito para recuperar. Escrevo este texto num aeroporto, tendo-me custado imensa ter viajado e deixado a família em condições tão precárias. Mas ontem [segunda-feira], 27 dias depois, a eletricidade voltou. Sei, à data que escrevo, que ainda existem pessoas sem eletricidade na zona de Leiria. Esta foi a minha história. Não foi fácil, mas consigo mobilizar meios, coisa que muitas pessoas não conseguiram, vivendo dramas indescritíveis.
A resposta a esta catástrofe não foi adequada. Há muito para melhorar. Há que recolher informações e dados para reconstituir o que realmente aconteceu. Depois, planear, investir e treinar, quer as entidades que têm de responder a este tipo de eventos, quer as populações que em muitos casos são parte integrante da primeira resposta e da minimização dos efeitos em cadeia destas catástrofes que vão ser cada vez mais naturais com o agravamento das alterações climáticas.






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