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“Já não nos bastava ficar sem teto e hoje ficamos sem chão”

Depois da destruição do vento, as cheias voltam a abalar a população e as empresas em Leiria.

O cenário de catástrofe em Leiria agravou-se ontem, depois de o rio ter galgado as margens, provocando várias inundações e obrigando à retirada de pessoas de casas e até animais.

Depois do vento ter devastado Leiria há 10 dias, a chuva intensa que tem caído nas últimas horas comprovou o pior dos cenários. Campos totalmente alagados, população e empresários a braços com centímetros de água a entrar pelas casas e empresas.

O caso mais grave em Leiria ocorreu ontem de manhã na Ponte das Mestras, Barosa. Há mais de uma década que a população e os empresários não despertavam para um cenário que, infelizmente, já lhes é familiar.

Aos 83 anos, Gabriela Ferreira foi retirada de casa num bote do Exército, ao contrário de outros vizinhos da sua rua, em Leiria, que se recusaram a sair apesar da anunciada subida das águas.

“Já não nos bastava ficar sem teto e hoje ficamos sem chão”, desabafou Cátia Guarda, olhos postos no bote onde seguia a avó Gabriela, de 83 anos, e o filho Afonso, os últimos a ser retirados das habitações na Ponte das Mestras, em Leiria, que hoje de manhã ficaram cercadas pela água.

Cátia ainda conseguiu sair pelo próprio pé para pôr a salvo ovelhas, que pastavam nas traseiras do prédio da família Ferreira. Mas, Gabriela e Afonso precisaram da ajuda dos militares, que retiraram oito pessoas só daquela rua.

Paulo Oliveira teve de regressar ontem de manhã à Ponte das Mestras, depois de uma noite a “bater de porta em porta” numa ação preventiva a avisar para a subida das águas. Foram poucos os que decidiram deixar as suas casas logo na quarta-feira. Ontem, muitos precisaram de ajuda, mas também há quem resista, como Álvaro Oliveira, 77 anos, que diz não ter medo da chuva nem das cheias. A decisão de Álvaro deixa amigos e funcionários preocupados.

Do viaduto que dá para a Ponte das Mestras, José Rodrigues tenta falar com o patrão. “Ele não sai de casa, diz que já assistiu a cinco cheias e que já está habituado”, contou José Rodrigues.

Ao seu lado, Paula Silvina tenta ter notícias da “Dona Josefa, que vive ali numa casa, que está cheia de água”, contou à Lusa, entre lágrimas.

Muitas das casas isoladas sentiram na última semana os efeitos da tempestade Kristin.

O telhado do prédio onde vive Gabriela e Cátia está parcialmente destruído, mas não conseguem arranjar quem o arranje.

“Tenho tirado folgas que tinha em atraso e agora parece-me que terei de meter férias, porque não consigo voltar para o trabalho nesta situação”, disse Cátia Guarda, mostrando os calos das mãos, sinais de uma semana “inteira a apanhar água com a esfregona”. O filho adolescente também continua sem aulas, porque a escola foi atingida pela tempestade e ainda não reabriu.

Cátia tenta combater o desanimo até porque sabe que ainda há quem esteja pior: “Há quem continue sem água, nem luz. Há não nem tenha o que comer ou não tenha idade para estas tragédias, como a minha avó”, lamentou a mulher de 43 anos.

Gabriela foi levada pelos bombeiros para a Igreja da Cruz de Areia, juntamente com outros moradores da zona. Antes de entrar no carro rumo à igreja desabafou: “Vivo nesta rua há 63 anos e nunca tinha visto nada assim”.

Fevereiro 6, 2026 . 13:45

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